Desde menino tenho fascínio por aviões e navios. A história da Segunda
Guerra Mundial, publicada exaustivamente em livros e enciclopédias, era uma
fonte inesgotável de leituras sobre as peripécias dessas duas invenções (apesar
dessa adoração pelos aviões e navios, preciso manter certa distância, pois
sofro de enjoos quando embarco em qualquer um dos dois).
Durante algum tempo, e já não era tão menino, minha fonte predileta foi
uma coleção de pequenos livros da Editora Renes: História Ilustrada da Segunda
Guerra.
Palavras como Stuka, Messerschimitt, Spitfire, Mustang, Fortaleza
Voadora, Bismark, Graf Spee, V2 e muitas outras, tinham um significado
romântico e aventureiro naquela cabeça curiosa de candidato a herói. Claro, que
no meu inocente encantamento pelos soldados, marinheiros e pilotos, heróis lutando
com suas máquinas fabulosas, não percebia o lado negro da guerra – tem sempre
gente que estraga tudo, não é mesmo? Os arquivos e a literatura estão lotados
de escritos, romanceados ou não, sobre os homens e mulheres que lutaram na
Segunda Guerra, sem muitas considerações sobre os aspectos morais do lado do
front em que militavam.
A vida segue e continuamos as leituras, aprofundamos o interesse e, das
máquinas fabulosas e seus pilotos, das aventuras heroicas nos campos de
batalha: partisans, comandos, ases da aviação de caça, passamos a cavar
motivações e a moralidade dos feitos. A guerra não é bela.
Não desisti dos aviões nem dos navios. Continuo achando bonitas as silhuetas,
incrível o desempenho das máquinas que estavam por aí naquela época dantesca, e
heroico o desprendimento dos que tinham coragem de lutar a bordo de maquinetas
que hoje seriam proibidas de decolar ou desatracar de qualquer cais. E as
minhas pesquisas e leituras continuam.
Uma nova - provavelmente a última – etapa, no meu interesse pela Segunda
Guerra, se materializou na forma da curiosidade sobre o que acontecia antes
dela, o que levou as coisas àquele patamar de violência irracional. Então, o
foco passou a ser a Alemanha, seus personagens e o povo que vivia por lá e que
permitiu, pelo voto, que Hitler e seus capangas assumissem o poder absoluto.
É fácil achar o que ler sobre isso: o que acontecia antes do nascimento e
desenvolvimento do nazismo, a preparação da guerra, a guerra, seu desfecho e a
loucura dos que governavam a Alemanha. Na internet qualquer um encontra quase
tudo sobre a Segunda Guerra, mas é leitura de livro de História, descritiva e
xarope para muitos, mesmo para mim que leio há muito tempo sobre o assunto.
O livro do jornalista norte-americano Erick Larson, No Jardim das Feras (In the Garden
of Beasts) - na edição brasileira criaram um subtítulo boboca, “Intriga e sedução na Alemanha de Hitler”-, não é obra de ficção e mostra o começo de tudo por um ângulo
diferente. Baseia-se principalmente nos documentos pessoais do embaixador Dodd e na correspondência trocada com o Departamento de Estado em Washington. Também serviram de
fonte os arquivos e as cartas de sua filha namoradeira, Martha, trocadas com amigos e o
ex-marido, deixados nos Estados Unidos e em documentos e diários dos outros personagens envolvidos.
É 1933 quando o professor universitário Dodd, bem relacionado em Washington,
mas duro de dinheiro e sem experiência diplomática, é nomeado embaixador dos
Estados Unidos e chega na Alemanha para trabalhar. Até a nomeação do professor
Dodd era costume dos países, inclusive do republicano Estados Unidos, enviar
para suas representações “diplomatas de carreira”, que naquela época
significava: homens ricos, da alta sociedade, que se valiam do cargo para
patrocinar um tipo de diplomacia de salões de festa, esbanjando o dinheiro do
próprio bolso.
O professor Dodd virou embaixador por iniciativa do presidente Franklin
Roosevelt, atropelando a hierarquia “profissional” da diplomacia americana.
Seus subordinados rancorosos da embaixada na Alemanha e os colegas do
Departamento, em Washington, se perguntavam uns aos outros como ele poderia sobreviver
no exterior apenas com o salário de embaixador. Ele conseguiu. Sua filha também
conseguiu fazer o que mais gostava: namorou quase todo mundo que valia alguma
coisa na Alemanha, incluindo o chefe da Gestapo de plantão, Rudolf Diels, um
espião da Rússia de Stalin e, não por falta de tentativa, quase “pegou” o
próprio Hitler.
O livro No Jardim das Feras é
hipnótico. Mostra, sob a ótica de um intelectual oriundo das universidades
americanas, o princípio, quando o nazismo ainda era apenas um refogadinho anti-semita,
atraente à grande parte das nações e apetitoso à maioria faminta do povo alemão.
Termina quando o professor Dodd é, finalmente, vencido pelos desafetos e
mandado de volta para casa enquanto a Alemanha já era uma imensa panela de
pressão, exibindo os sinais da grande explosão.