Não sei o por que do meu gosto pelo assunto máfia. Aquela dos italianos
malvados, geralmente de Nova York. Mas penso se boa parte dessa minha “predileção”
não se deve a um seriado americano antigo, o “Cidade Nua” (Naked City), produzido para a televisão entre os anos de 1958 a
1963. Chegou aqui em 64 e passou em algumas cidades, não muitas. Bem, naqueles
tempos havia poucas com canal de televisão. Eu, garoto em Porto Alegre, tive a
sorte de contar com a TV Gaúcha, como uma das que transmitiu o programa.
De lá para cá fui vendo tudo o que aparecia, não era muita coisa, até
aparecer outro marco na minha queda pelas histórias de mafiosos: o livro do Gay
Talese, Honrados Mafiosos (Honor Thy Father). Talese, no seu estilo de jornalismo literário, ou Novo
Jornalismo, como insistem, conta a história do Joe Bonano e sua família (mulher
e filhos). Joe “Bananas” era o chefe da família Bonano (que ainda leva o seu nome
e é uma das grandes de Nova York), e consta que o livro foi uma biografia
autorizada de um chefão. Depois veio o primeiro Poderoso Chefão.
Toda essa introdução só para ficar claro o meu “amor” pela máfia. Acho
que minha personalidade tímida e a flagrante incapacidade para enfrentamentos,
digamos, mais rudes, me fez voltar a atenção para personagens com modus operandi tão diferente do meu.
Eu já deixei para trás a fase dos romances de mafiosos. Agora procuro o
que jornalistas, juristas ou policiais, que viram o bicho de perto e
sobreviveram, escrevem. Minha lista de livros para comprar sobre o assunto é
razoável. Aí, nessa perene busca pela bibliografia mafiosa – já li muitos -, acabei
encontrando resenhas sobre um livro escrito por uma mulher. Nelas, além das boas
recomendações sobre o trabalho de Petra Reski, havia comentários sobre uma
visão diferente do problema. Afinal era uma mulher escrevendo sobre um tema,
até então, masculino. Em meados de 2011 o livro foi pra fila (longa) da minha
lista de compras. Claro que nessa lista não entram somente livros sobre a máfia
e os mafiosos, tem de todo tipo. Em outubro de 2011 o livro chegou nas minhas
mãos, finalmente. Não que eu estivesse particularmente ansioso por esse, fico
assim pelos livros de qualquer encomenda, mas é que aqui o assunto é ele, aliás,
o que a Petra escreveu. Melhor ainda, como ela escreveu sobre a máfia.
Minha filha diz que eu gosto de livros para meninos, no que tem razão, na
maior parte das vezes. Nesse caso, não. Será que o assunto máfia é coisa para
meninos? Provavelmente, a não ser que você seja mulher na Itália, especialmente
se for uma na Sicília, na Calábria ou na Campânia. Lá, máfia interessa a
qualquer um e as mulheres sofrem pelos seus homens.
Uma alemã escrevendo sobre a máfia italiana pode produzir um livro para
meninos? Poderia, mas ela não fez isso. É uma escrita que foi fundo no meu
coração enquanto descrevia a relação das mulheres com os costumes do lugar onde
vivem, sem escolha.
A partir de uma chacina ocorrida numa pizzaria na Alemanha, a jornalista
seguiu a trilha dos suspeitos e acabou na Sicília. Em Palermo pegou uma fotógrafa
nativa, filha de uma ativista local e saíram pela ilha atrás de pessoas que
tivessem alguma coisa para falar. Não encontraram muita gente corajosa. Elas,
sim, tiveram que carregar uma dose imensa de disposição e coragem para realizar
o trabalho de campo.
O resultado é um livro para meninos e meninas curiosos. Que se importam
em saber como é possível que pessoas como nós - que vivem em regiões bem parecidas
com a maioria das regiões do nosso Brasil - nascem, vivem e morrem sob o governo
de uma instituição centenária e cruel. Isso acontece no coração da Europa.
Aqueles italianos da máfia de Nova York eram muito bonzinhos.




