sábado, 28 de abril de 2012

Máfia: padrinhos, pizzarias e falsos padres


Não sei o por que do meu gosto pelo assunto máfia. Aquela dos italianos malvados, geralmente de Nova York. Mas penso se boa parte dessa minha “predileção” não se deve a um seriado americano antigo, o “Cidade Nua” (Naked City), produzido para a televisão entre os anos de 1958 a 1963. Chegou aqui em 64 e passou em algumas cidades, não muitas. Bem, naqueles tempos havia poucas com canal de televisão. Eu, garoto em Porto Alegre, tive a sorte de contar com a TV Gaúcha, como uma das que transmitiu o programa.

De lá para cá fui vendo tudo o que aparecia, não era muita coisa, até aparecer outro marco na minha queda pelas histórias de mafiosos: o livro do Gay Talese, Honrados Mafiosos (Honor Thy Father). Talese, no seu estilo de jornalismo literário, ou Novo Jornalismo, como insistem, conta a história do Joe Bonano e sua família (mulher e filhos). Joe “Bananas” era o chefe da família Bonano (que ainda leva o seu nome e é uma das grandes de Nova York), e consta que o livro foi uma biografia autorizada de um chefão. Depois veio o primeiro Poderoso Chefão.

Toda essa introdução só para ficar claro o meu “amor” pela máfia. Acho que minha personalidade tímida e a flagrante incapacidade para enfrentamentos, digamos, mais rudes, me fez voltar a atenção para personagens com modus operandi tão diferente do meu.

Eu já deixei para trás a fase dos romances de mafiosos. Agora procuro o que jornalistas, juristas ou policiais, que viram o bicho de perto e sobreviveram, escrevem. Minha lista de livros para comprar sobre o assunto é razoável. Aí, nessa perene busca pela bibliografia mafiosa – já li muitos -, acabei encontrando resenhas sobre um livro escrito por uma mulher. Nelas, além das boas recomendações sobre o trabalho de Petra Reski, havia comentários sobre uma visão diferente do problema. Afinal era uma mulher escrevendo sobre um tema, até então, masculino. Em meados de 2011 o livro foi pra fila (longa) da minha lista de compras. Claro que nessa lista não entram somente livros sobre a máfia e os mafiosos, tem de todo tipo. Em outubro de 2011 o livro chegou nas minhas mãos, finalmente. Não que eu estivesse particularmente ansioso por esse, fico assim pelos livros de qualquer encomenda, mas é que aqui o assunto é ele, aliás, o que a Petra escreveu. Melhor ainda, como ela escreveu sobre a máfia.

Minha filha diz que eu gosto de livros para meninos, no que tem razão, na maior parte das vezes. Nesse caso, não. Será que o assunto máfia é coisa para meninos? Provavelmente, a não ser que você seja mulher na Itália, especialmente se for uma na Sicília, na Calábria ou na Campânia. Lá, máfia interessa a qualquer um e as mulheres sofrem pelos seus homens.

Uma alemã escrevendo sobre a máfia italiana pode produzir um livro para meninos? Poderia, mas ela não fez isso. É uma escrita que foi fundo no meu coração enquanto descrevia a relação das mulheres com os costumes do lugar onde vivem, sem escolha.

A partir de uma chacina ocorrida numa pizzaria na Alemanha, a jornalista seguiu a trilha dos suspeitos e acabou na Sicília. Em Palermo pegou uma fotógrafa nativa, filha de uma ativista local e saíram pela ilha atrás de pessoas que tivessem alguma coisa para falar. Não encontraram muita gente corajosa. Elas, sim, tiveram que carregar uma dose imensa de disposição e coragem para realizar o trabalho de campo.

O resultado é um livro para meninos e meninas curiosos. Que se importam em saber como é possível que pessoas como nós - que vivem em regiões bem parecidas com a maioria das regiões do nosso Brasil - nascem, vivem e morrem sob o governo de uma instituição centenária e cruel. Isso acontece no coração da Europa.

Aqueles italianos da máfia de Nova York eram muito bonzinhos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Suítes Imperiais

Já havia lido um outro livro dele, do Bret Easton Ellis, o Psicopata Americano. Gostei. Forte, amalucado, uma escrita particular. Um encanto e um soco no estômago. Já comentei. Precisava ler mais. Aí, comprei Suítes Imperiais (Imperial Bedrooms), para descobrir que o livro é a continuação de outro, escrito vinte e cinco anos atrás, o Abaixo de Zero (Less than Zero) que ainda não conheço e agora quero ler. Pombas, to lendo o cara de trás prá frente! Mas, não importa. O que li até agora valeu à pena, mesmo fora de ordem.

O que notei nesse é que o autor me fez correr atrás dos personagens. Até quase a metade do livro vai aparecendo gente por todo lado e ele nem se importa em fazer as apresentações ou se você está agarrado ao fio da meada. Chegamos a um ponto onde eu não estava mais entendendo quem era o que. E ele nem aí, mandando bala. E eu indo pra frente e pra trás no texto, tentando reencontrar as migalhas de pão que me ajudassem a percorrer a trilha confusa daquela floresta de personagens na Los Angeles do Clay, o protagonista e o único que o autor permitiu que ficasse sempre à minha vista.

Repentinamente, sei de tudo e de quem é quem na trama. Bem engenhoso, o Bret Easton Ellis. Aí, é quando as coisas mudam e quem começa a perder o controle da situação é o Clay. Eu já estava me lixando para ele.

Ótimo escritor. Bom livro. Bom para sacudir os miolos. Livro recente, de 2010. Questões bem atuais, transgressões em série, coisas desses tempos de hoje: sexo, auto-indulgência, egoísmo e emoções abaixo de zero.

Respirava fundo cada vez que pegava no livro para saber o que aconteceria com o Clay e a sua turma.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cartas a um jovem escritor

Um dia descobri que tinha que começar a escrever. Não lembro quando foi que isso aconteceu, mas lembro que aconteceu assim mesmo: “preciso começar a escrever”. Idéias não me faltam, tenho até demais. A primeira delas me apareceu ainda na adolescência, pelos meus 14 anos de idade, mas nunca tentei colocar a coisa no papel. Outras vieram e se foram até que, enfim, me apareceu a urgência, a necessidade de escrever. Comecei logo por um romance, um épico. Daqueles para vários volumes. Eu contaria uma história - que se quisesse - não teria fim. Foi esse o destino que dei ao romance: um fim antes de nascer. Afinal, que leitor se interessaria por uma coisa que não tem fim.

Eu tinha uma vaga idéia de por onde começar, mas já estava com sérios problemas para tocar a obra e finalizar a empreitada. Parei. Não abandonei aquela idéia, que continuo achando boa, a que pode descambar no tal romance épico, mas guardei na gaveta para uma futura reavaliação. Parei por falta de maior conhecimento sobre a mecânica da escrita de longo curso. Preciso estudar, preciso treinar, conclui.

Uma longa história me pareceu como desmontar e remontar um motor de automóvel. Sem conhecimento técnico é praticamente impossível fazer um trabalho de qualidade. Afinal, o mecanismo, depois de remontado, precisa funcionar perfeitamente. Durante o trabalho, além de saber organizar as centenas de peças resultantes da desmontagem, há que se exercer força bruta, persistência, jeito e domínio das ferramentas. Tudo isso sem medo ou nojo do óleo e da graxa com que fatalmente se emporcalhará.

Comecei a procurar fontes de informação sobre o ofício de escrever. Descobri que muitos escritores haviam produzido textos sobre a produção literária. Cito alguns dos mais conhecidos: Ítalo Calvino, Milan Kundera, Thomas Mann e o Mario Vargas Llosa e dois menos famosos, o David Lodge, do precioso A Arte da Ficção e a Anne Lamott, do surpreendente Bird by Bird, sobre os quais me sinto obrigado a escrever, porém em outra ocasião.

Havia acabado de ler alguns livros do Mario Vargas Llosa e gostado muito. Dois deles, Tia Julia e o Escrevinhador e Travessuras da Menina Má, são obras primas. Como na sua bibliografia mencionava um certo, Cartas a um jovem escritor (quando gosto de um escritor sempre dou uma pescoçada na relação de obras publicadas no Brasil), decidi começar por ali.

Há muito deixei de ser um homem jovem, mas isso não significa que eu não seja um jovem escritor. O livro de Vargas Llosa é um manual da prática do escrever romances. Um homem que dedicou toda a vida a isso tem muito a dizer sobre o seu ofício e ele faz isso de forma organizada, leve e bem humorada. Do seu Cartas a um jovem escritor (Cartas a un joven novelista), além das soluções apresentadas para as questões estruturais que aparecem quando se pretende contar uma história, a maior lição que tirei diz respeito à persistência na criatividade acima das técnicas da boa redação.

Um livro pequeno, mas de valor incalculável para quem deseja ou, como eu, descobre que precisa escrever.

“Toda vida merece um livro”, palavras de Mario Vargas Llosa.

sábado, 7 de abril de 2012

A Manobra do Rei dos Elfos

Imagine José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e Ruy Barbosa, reunidos, a pedido de D. Pedro II, para uma missão do tipo capa e espada, em lombo de cavalos. Imagine que os quatro - alguns já na meia idade -, além de galopar até a fronteira com a Argentina ou o Paraguai, lá, por meio de escaramuças e tiroteios, tivessem como objetivo resgatar um prisioneiro político das garras do tirano de plantão. Muito maluco, não é?

É, mas bem que poderia resultar em alguma coisa... interessante.

O jovem escritor alemão Robert Löhr fez. Ele convocou, para protagonistas no seu romance A manobra do rei dos elfos (Das Erlkönig-Manöver), nada mais, nada menos, que o escritor e pensador Goethe, o poeta, filósofo e historiador Schiller, o também escritor e dramaturgo Kleist e o geógrafo e explorador Humboldt, para uma missão tresloucada, com direito a explosões, tiros na noite e, claro, capa e espada. O objetivo: resgatar das garras de Napoleão Bonaparte o herdeiro de Luís XVI, o delfim Luís Carlos, que havia sobrevivido milagrosamente, ao cárcere da Revolução Francesa, mas que estava condenado à morte.

Quando li algumas resenhas desse livro fiquei desconfiado, pois costumo evitar esse tipo de salada histórica. Por outro lado, havia elogios suficientes a respeito do trabalho do Robert Löhr. Ler um romance é sempre bem melhor do que bula de remédio, não é mesmo? Como não me arrisco em mesas de jogos, mas não resisto a uma estante de livraria, comprei o livro.

Scaramouche, do escritor Rafael Sabatini, Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas pai, é por aí a coisa. Mais: discussões filosóficas, políticas e existenciais, obviamente, pululam entre as páginas nas bocas dos personagens, todos pensadores cultos. Uma delícia em forma de texto bem humorado, humanitário (os mocinhos só matam os bandidos em último caso) e romântico. Ah! Também tem amor e sexo no meio do mato. Tudo muito natural.

O livro me surpreendeu e me divertiu, mas eu gosto muito de romances de aventura.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

1421 – O ano em que a China descobriu o Mundo

Essa história da descoberta da América pelo Colombo já virou lorota. Faz tempo que se sabe que os primeiros europeus a pisar na América foram os noruegueses no final do século 8, entre os anos de 983 e 986. Também reconhecemos que aquelas incursões não resultaram em nada, pois o que restou delas são apenas vestígios arqueológicos, coisa bem diferente do que aconteceu depois que Colombo aportou (ou seria aprontou?) quinhentos anos depois.

Tranquilo e sábio com essas informações me deparei com um livro que afirmava, nada mais, nada menos, que eu não sabia de tudo e que havia mais personagens entre uma e outra chegada às Américas: os chineses. Sem mistério, pois na capa o título já entrega o assunto, 1421 – O ano em que a China descobriu o Mundo (1421 - the year China discovered the world), o livro é uma paulada na moleira da nossa história.

Curioso como um gato imprudente corri atrás dos escritos do Gavin Menzies. Descobri que o sujeito é um comandante de submarinos reformado da marinha britânica. Ora, para escrever sobre navegações nada pode credenciar mais um marinheiro do que passar a vida toda navegando pelos sete mares, e mais, pela marinha da Inglaterra, coisa que o Sr. Gavin fez.

De acordo com ele, toda a história oficial sobre os descobrimentos deverá, em breve, obrigatoriamente ser reescrita. É um caso de pura e cristalina justiça. Quem descobriu o Brasil? Foi Pedro Álvares Cabral. Recitam as criancinhas desde o primeiro ano primário. Errado, foi Hong Bao. Quem? Hong Bao, um almirante chinês, eunuco e fiel ao seu imperador Zhu Di, da disnastia Ming.

O autor afirma que os navegadores portugueses, espanhóis e italianos puderam chegar à América e a outros lugares graças a cartas náuticas que haviam sido copiadas de mapas chineses desenhados 70 anos antes das viagens dos navegantes europeus. Por exemplo: o Estreito de Magalhães era conhecido por eles como Rabo do Dragão. E por aí vai. Descobri que os chineses circundaram o globo um século antes de Magalhães e que chegaram à América setenta anos antes de Colombo e à Austrália 350 anos antes de Cook.

Tem muito mais no livro escrito para leigos em uma tocada super digerível que me fez ir até o fim sem parar. Não basta o assunto ser interessante se o autor não escrever bem e isso o Gavin Menzies sabe.

Eu, que gosto muito de História, adorei ler sobre os almirantes chineses e suas esquadras de tesouros com mais de três mil juncos, muitos deles com até 150 metros de comprimento (as caravelas tinham cerca de onze metros), que zarparam da China em 1421 para conhecer o mundo. O que aconteceu com eles e por que não se sabe disso há mais tempo? O livro conta.