quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tablóide Americano


Eu já mencionei esse livro, Tablóide americano (American tabloid), no comentário “6 mil em espécie” que publiquei sobre a trilogia de romances policiais, do James Ellroy onde a narrativa se passa nos Estados Unidos da era Kennedy e logo após. Naquele texto tomei por base o que havia lido nos dois últimos livros da série, os 6 mil em espécie (The cold six thousand) e Sangue errante (Blood’s a rover). Não tinha como comentar o primeiro, o tal Tablóide, porque esteve esgotado. Semana passada, finalmente, terminei a sua leitura.

Tablóide americano, não correspondeu à minha expectativa. Por ser o primeiro, pensei o pior sobre o livro. Normalmente, o autor aprimora o trabalho na medida em que o desenvolve. Engano meu. Não dá para eleger qualquer um dos três livros como o melhor. A pegada é a mesma.

Quando comecei a ler a trilogia, a partir do livro dois, o John Kennedy já era e a ação é nos tempos de depois do seu assassinato. Em Tablóide americano a coisa começa antes da sua eleição para presidente e discorre sobre as maquinações para que isso aconteça, incluindo a campanha contra o Nixon, as tramóias com a máfia - do Sam Giancana e do Carlos Marcelo -, com o Jimmy Hoffa, com o FBI - do Edgar Hoover -, com o Fidel Castro – aquele de Cuba -, com o irmãozinho Robert Kennedy e o até com o doido drogado do Howard Hughes. Descreve o planejamento e as consequências da desastrada invasão da Baia dos Porcos e outras coisas mais do reinado do Kennedy. Todo mundo alimentou ilusões a respeito do priápico presidente. Todo mundo achava que ele seria legal. Todo mundo achava que a máfia se daria bem. Hoffa se daria bem. Hughes e até Fidel também. Ninguém se deu bem.

O livro é ótimo, mas aviso que ele segue o mesmo estilo de pancada dos outros dois, ou seja: golpe abaixo da linha da cintura é o que conta. Prostituição, chantagem, tráfico de heroína e de influência, assassinatos a tiros e a machadadas, roubo, escutas ilegais, tudo faze parte do cardápio oferecido por James Ellroy na trilogia fantástica, Submundo USA, sobre o crime organizado e a politicagem nos Estados Unidos dos anos 50 e 60. Há coisas escritas das quais até Deus duvida, mas nada tão absurdo ao ponto de se ter a certeza de que não aconteceu. Entre as várias delícias, os relatos sobre a produção da revista de fofocas Hush Hush: impagável.

“O maior escritor policial de nossa época, talvez de todos os tempos.” - Newsweek

“Estilhaços narrativos que, unidos com uma coerência exemplar, formam uma história cativante desde os primeiros capítulos. É literatura policial, e das boas.” - Folha de S. Paulo

terça-feira, 14 de agosto de 2012

1933 foi um ano ruim


John Fante foi um homem preocupado com a verdade. Sempre que leio algum dos seus livros me passa pela cabeça que ele faz parecer tão simples escrever direto do coração para o papel. Quem já arriscou seus rabiscos sabe bem do que estou falando.

Nesse livro, pequeno, 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year), ele não deixa nada para depois. Coloca lá as coisas que tocam fundo o coração, direto, sem voltas. Dominic quer o mundo. Ele tem 17 anos e está certo de que não tem tempo a perder. Meu coração pulava enquanto eu me lembrava de que já estive por lá, pelos 17 anos de idade, com meus sonhos e delírios, caros, urgentes.

Depois que terminei de ler o texto de John Fante, morto lá em 1983, doeu lembrar que ainda estou aqui, que nada aconteceu. Que o mundo não acabou – todo mundo um dia teve a certeza de que isso iria acontecer quando viu que a vida não estava nem aí para sonhadores com 17 anos de idade.

Já li dele Pergunte ao Pó (Ask the dust), Espere a primavera, Bandini (Wait until spring, Bandini) e esse, 1933 foi um ano ruim, em todos está presente essa urgência em realizar e a ansiedade jovial do protagonista, mais ou menos um alter ego do autor.

Charles Bukowski, uma espécie de curador informal da obra de John Fante, disse: “finalmente aqui está um homem que não tem medo da emoção”.