quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Gomorra


Roberto Saviano é um jornalista italiano que um dia resolveu morrer. Claro que ele não queria morrer verdadeiramente, do jeito que se imagina como seria com um tiro, uma facada ou estrangulamento, essas coisas horríveis e que devem doer um bocado. Ele resolveu que não valia a vida de jornalista se não descobrisse como funciona a indústria da morte, da corrupção infame e da miséria que assola boa parte da Itália: a máfia, mais precisamente a Camorra, de Nápoles.

Largou tudo e se infiltrou naquele mundo. Não precisou ir muito fundo - se tivesse conseguido, não teria sobrevivido para contar a história -, mas o tanto que ele se aprofundou foi o suficiente para escrever o livro Gomorra e merecer uma sentença de morte.

Estarrecido é pouco para definir como fiquei enquanto desfolhava o livro, no princípio com incredulidade e, à medida em que as tramóias macabras vão se sucedendo, com revolta e repugnância. Como isso ainda pode acontecer em pleno século 21? Me perguntei muitas vezes. Que país é esse que não consegue se livrar desse verdadeiro câncer, que é a máfia? Ora, não estamos muito longe daquilo, não é, mesmo aqui no Brasil. Países muito mais desenvolvidos do que nós e a Itália, como os Estados Unidos e Alemanha, têm problemas sérios com organizações derivadas ou associadas diretamente à máfia italiana.

Tráfico de drogas, de armas, chantagem, extorsão, jogatina e loterias, prostituição, contrabando, corrupção de funcionários públicos e armações para amealhar contratos lesivos etc, são muito mais comuns do que percebemos sentados em nossos sofás. A podridão se alastra nas áreas de serviços como a coleta de lixo e obras públicas. Outro exemplo de área dominada pelos escroques é a da movimentação de cargas em portos, isso no mundo todo. A Itália não seria uma exceção, nenhum país é. É ingênuo pensar que sim, que existem lugares diferentes, onde os sindicatos e organizações que dominam essas áreas de serviços e categorias profissionais o fazem por absoluto altruísmo e interesse na grandeza e desenvolvimento do seu país e que não são controlados ou simplesmente pertencem à máfia.

Essas coisas todas e a omissão das autoridades e da sociedade em geral, são expostas didaticamente, cruamente e com clareza pelo texto jornalístico do Saviano. A crueldade insana, sangrenta e sem sentido, manteve um “bolo” na minha garganta durante boa parte da leitura. Homens que praticam atos de barbárie contra mulheres e crianças inocentes, culpados apenas por serem parentes de algum desafeto ou de estarem no lugar errado na hora errada, me fizeram pensar, afinal, que ser humano não significa ser grande coisa.

Gomorra é leitura que fascina, assusta e desperta pensamentos sombrios.

Roberto Saviano ainda não morreu.

sábado, 1 de setembro de 2012

A felicidade é fácil


Acabei de ler o livro do jornalista Edney Silvestre. Não sabia nada dele como escritor, muito menos que esse não era seu primeiro livro. Soube um pouco quando me dei ao trabalho de ler umas e outras boas resenhas sobre o A felicidade é fácil.

Gosto de ler. Leio de tudo. Gosto muito de histórias policiais.

Eu confesso: tive que vencer algum preconceito. Jornalista global, resenhas em jornais escritas por colegas... Caramba! Tenho gasto um bom dinheiro para ler muitos romances policiais dos quais bastou uma resenha “interessante”. E isso não me livrou de ler coisas deficientes. Vou prestigiar um brasileiro, pensei. Não vou conseguir me arrepender disso mais do que já me arrependi ao ter me arriscado com sujeitos com nomes estrangeiros. Comprei o livro.

De início estranhei. Parecia que estava lendo uma história já conhecida, que já havia sido publicada nos jornais, até me dar conta de que o Edney estava usando, com  habilidade, a minha memória. Ele conta um caso de sequestro perpetrado no Brasil por bandidos estrangeiros. Lembram? Pois é, eu ia me lembrando e isso me fazendo acreditar que já sabia do caso. Mas o livro não é uma reportagem, é romance, e me caiu a ficha. O enredo não é o mesmo que narrou, em passado recente, a crônica policial brasileira, mas tem tudo com o que os jornais publicaram sobre os famosos casos do Abílio Diniz e do Olivetto. Só que o autor nos coloca do outro lado da linha, do lado dos que sabiam o que realmente havia por trás daquilo tudo. Estranhamente, a possibilidade de que complôs como aqueles pudessem ter acontecido da forma como ele descreve, não me espantou.

Edney Silvestre navega por onde conhece. Pega tudo: polícia, política, economia, corrupção e outras coisas que estão por aí, na nossa cara, o tempo todo. Mistura, sacode e serve de volta numa história simples, bem montada e bem escrita.