Roberto Saviano é um jornalista italiano que um dia resolveu morrer.
Claro que ele não queria morrer verdadeiramente, do jeito que se imagina como
seria com um tiro, uma facada ou estrangulamento, essas coisas horríveis e que
devem doer um bocado. Ele resolveu que não valia a vida de jornalista se não
descobrisse como funciona a indústria da morte, da corrupção infame e da
miséria que assola boa parte da Itália: a máfia, mais precisamente a Camorra,
de Nápoles.
Largou tudo e se infiltrou naquele mundo. Não precisou ir muito fundo - se
tivesse conseguido, não teria sobrevivido para contar a história -, mas o tanto
que ele se aprofundou foi o suficiente para escrever o livro Gomorra e merecer uma sentença de morte.
Estarrecido é pouco para definir como fiquei enquanto desfolhava o livro,
no princípio com incredulidade e, à medida em que as tramóias macabras vão se
sucedendo, com revolta e repugnância. Como isso ainda pode acontecer em pleno século
21? Me perguntei muitas vezes. Que país é esse que não consegue se livrar desse
verdadeiro câncer, que é a máfia? Ora, não estamos muito longe daquilo, não é,
mesmo aqui no Brasil. Países muito mais desenvolvidos do que nós e a Itália,
como os Estados Unidos e Alemanha, têm problemas sérios com organizações derivadas
ou associadas diretamente à máfia italiana.
Tráfico de drogas, de armas, chantagem, extorsão, jogatina e loterias, prostituição,
contrabando, corrupção de funcionários públicos e armações para amealhar contratos
lesivos etc, são muito mais comuns do que percebemos sentados em nossos sofás.
A podridão se alastra nas áreas de serviços como a coleta de lixo e obras
públicas. Outro exemplo de área dominada pelos escroques é a da movimentação de cargas em
portos, isso no mundo todo. A Itália não seria uma exceção, nenhum país é. É
ingênuo pensar que sim, que existem lugares diferentes, onde os sindicatos e
organizações que dominam essas áreas de serviços e categorias profissionais o
fazem por absoluto altruísmo e interesse na grandeza e desenvolvimento do seu país
e que não são controlados ou simplesmente pertencem à máfia.
Essas coisas todas e a omissão das autoridades e da sociedade em geral, são
expostas didaticamente, cruamente e com clareza pelo texto jornalístico do
Saviano. A crueldade insana, sangrenta e sem sentido, manteve um “bolo” na
minha garganta durante boa parte da leitura. Homens que praticam atos de
barbárie contra mulheres e crianças inocentes, culpados apenas por serem
parentes de algum desafeto ou de estarem no lugar errado na hora errada, me fizeram
pensar, afinal, que ser humano não significa ser grande coisa.
Gomorra é leitura que fascina,
assusta e desperta pensamentos sombrios.
Roberto Saviano ainda não morreu.
