segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

1Q84


Antes, minha única aventura pela literatura japonesa se chamava Musashi, do Eiji Yoshikawa. É o romance biográfico sobre o samurai famoso Myiamoto Musashi. Resenhas elogiosas e o comentário favorável de um amigo me deixaram animado para encarar o tijolo (dois grossos volumes). Não consegui ir além das primeiras vinte ou trinta páginas: xarope sonífero. Havia sido intoxicado pelos arrasadores filmes medievos do Kurosawa e o ótimo romance Xógum, também sobre o Japão medieval, mas escrito pelo inglês australiano James Clavell, então fiquei frustrado. Queria muito conhecer a história do herói samurai, sou curioso sobre o Japão feudal, mas não deu. Por sorte os livros eram emprestados e foi só uma questão de devolução, senão a tijolada teria sido dolorosa.

Vinte anos depois, cá estou novamente com um livro de outro japonês, dessa vez o Haruki Murakami e o seu 1Q84 - é assim mesmo com Q (foi uma forma criativa que o autor encontrou para grafar 1984, ano em que se desenrola a trama do romance e  também uma homenagem ao livro de George Orwell, 1984). Pelo que entendi, a letra que, em japonês, tem pronúncia semelhante à do número nove em inglês: nine.

Só falo dos livros que gosto. Mas 1Q84 é um livro esquisito. Não posso dizer que gostei, mas não consegui parar de ler e quando terminei fiquei com a sensação de que vou acabar comprando o segundo volume, a continuação do romance. Por isso escrevo.

Pensando no que acabara de ler, lembrei do Musashi, que é um livro de ritmo lento, texto prolixo e repetitivo. Me voltou à memória que esse tipo de coisa me tirou a paciência e me fez abandonar a empreitada, quando tentava ler as aventuras do samurai. Qual a diferença entre os dois livros e porque consegui ir até o fim do segundo?

Em 1Q84 há sexo, bebedeiras, tiros, facadas, mulheres e homens honestos, assassinas lascivas e pilantras de vários tipos. Em Musashi há homens maus, cabeças cortadas e ventres abertos em profusão, mas é pura ética e moral samurai, em densidade religiosa. 1Q84 conta com parágrafos e parágrafos de texto prolixo, perorativo. O autor repete e repete descrições e costuma explicar o mesmo fato mais de uma vez. O livro é, em vários momentos, exasperante. Pulava trechos sem fim, mas não largava a leitura. Em Musashi isso não adiantava, era só pular da panela para a frigideira, pois o maior problema lá era a velocidade – a escrita impõe um ritmo que me levou ao desânimo e à desistência. Murakami, culto e esperto, mistura suspense, mundos paralelos, personagens misteriosos, seitas religiosas, terroristas, ternura, amor e texto repetitivo. Apesar desse defeito da narrativa, o japonês conduz numa trama interessante, exótica o suficiente para manter o meu interesse no desfecho. Cheguei a suspeitar da tradução: será que a transcrição descuidado do conteúdo dos ideogramas para o português pode gerar um texto repetitivo?, pensei, totalmente ignorante do idioma japonês.

Pensando bem, vou fazer mais uma tentativa na leitura do Musashi.