Antes, minha única aventura pela literatura japonesa se chamava Musashi, do Eiji Yoshikawa. É o romance biográfico sobre o
samurai famoso Myiamoto Musashi. Resenhas elogiosas e o comentário favorável de
um amigo me deixaram animado para encarar o tijolo (dois grossos volumes). Não
consegui ir além das primeiras vinte ou trinta páginas: xarope sonífero. Havia
sido intoxicado pelos arrasadores filmes medievos do Kurosawa e o ótimo romance
Xógum, também sobre o Japão medieval,
mas escrito pelo inglês australiano James Clavell, então fiquei frustrado. Queria
muito conhecer a história do herói samurai, sou curioso sobre o Japão feudal, mas
não deu. Por sorte os livros eram emprestados e foi só uma questão de devolução,
senão a tijolada teria sido dolorosa.
Vinte anos depois, cá estou novamente
com um livro de outro japonês, dessa vez o Haruki Murakami e o seu 1Q84 - é assim mesmo com Q (foi uma
forma criativa que o autor encontrou para grafar 1984, ano em que se desenrola
a trama do romance e também uma homenagem
ao livro de George Orwell, 1984). Pelo
que entendi, a letra que, em japonês,
tem pronúncia semelhante à do número nove em inglês: nine.
Só falo dos livros que gosto.
Mas 1Q84 é um livro esquisito. Não posso
dizer que gostei, mas não consegui parar de ler e quando terminei fiquei com a sensação
de que vou acabar comprando o segundo volume, a continuação do romance. Por
isso escrevo.
Pensando no que acabara de
ler, lembrei do Musashi, que é um livro de ritmo lento, texto
prolixo e repetitivo. Me voltou à memória que esse tipo de coisa me tirou a
paciência e me fez abandonar a empreitada, quando tentava ler as aventuras do
samurai. Qual a diferença entre os dois livros e porque consegui ir até o fim
do segundo?
Em 1Q84 há sexo, bebedeiras, tiros, facadas, mulheres e homens
honestos, assassinas lascivas e pilantras de vários tipos. Em Musashi há homens maus, cabeças cortadas
e ventres abertos em profusão, mas é pura ética e moral samurai, em densidade
religiosa. 1Q84 conta com parágrafos
e parágrafos de texto prolixo, perorativo. O autor repete e repete descrições e
costuma explicar o mesmo fato mais de uma vez. O livro é, em vários momentos,
exasperante. Pulava trechos sem fim, mas não largava a leitura. Em Musashi isso não adiantava, era só pular
da panela para a frigideira, pois o maior problema lá era a velocidade – a
escrita impõe um ritmo que me levou ao desânimo e à desistência. Murakami,
culto e esperto, mistura suspense, mundos paralelos, personagens misteriosos,
seitas religiosas, terroristas, ternura, amor e texto repetitivo. Apesar desse
defeito da narrativa, o japonês conduz numa trama interessante, exótica o suficiente
para manter o meu interesse no desfecho. Cheguei a suspeitar da tradução: será
que a transcrição descuidado do conteúdo dos ideogramas para o português pode
gerar um texto repetitivo?, pensei, totalmente ignorante do idioma japonês.
Pensando bem, vou fazer mais
uma tentativa na leitura do Musashi.
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