Um dia descobri que tinha que começar a escrever. Não lembro quando foi que isso aconteceu, mas lembro que aconteceu assim mesmo: “preciso começar a escrever”. Idéias não me faltam, tenho até demais. A primeira delas me apareceu ainda na adolescência, pelos meus 14 anos de idade, mas nunca tentei colocar a coisa no papel. Outras vieram e se foram até que, enfim, me apareceu a urgência, a necessidade de escrever. Comecei logo por um romance, um épico. Daqueles para vários volumes. Eu contaria uma história - que se quisesse - não teria fim. Foi esse o destino que dei ao romance: um fim antes de nascer. Afinal, que leitor se interessaria por uma coisa que não tem fim.Eu tinha uma vaga idéia de por onde começar, mas já estava com sérios problemas para tocar a obra e finalizar a empreitada. Parei. Não abandonei aquela idéia, que continuo achando boa, a que pode descambar no tal romance épico, mas guardei na gaveta para uma futura reavaliação. Parei por falta de maior conhecimento sobre a mecânica da escrita de longo curso. Preciso estudar, preciso treinar, conclui.
Uma longa história me pareceu como desmontar e remontar um motor de automóvel. Sem conhecimento técnico é praticamente impossível fazer um trabalho de qualidade. Afinal, o mecanismo, depois de remontado, precisa funcionar perfeitamente. Durante o trabalho, além de saber organizar as centenas de peças resultantes da desmontagem, há que se exercer força bruta, persistência, jeito e domínio das ferramentas. Tudo isso sem medo ou nojo do óleo e da graxa com que fatalmente se emporcalhará.
Comecei a procurar fontes de informação sobre o ofício de escrever. Descobri que muitos escritores haviam produzido textos sobre a produção literária. Cito alguns dos mais conhecidos: Ítalo Calvino, Milan Kundera, Thomas Mann e o Mario Vargas Llosa e dois menos famosos, o David Lodge, do precioso A Arte da Ficção e a Anne Lamott, do surpreendente Bird by Bird, sobre os quais me sinto obrigado a escrever, porém em outra ocasião.
Havia acabado de ler alguns livros do Mario Vargas Llosa e gostado muito. Dois deles, Tia Julia e o Escrevinhador e Travessuras da Menina Má, são obras primas. Como na sua bibliografia mencionava um certo, Cartas a um jovem escritor (quando gosto de um escritor sempre dou uma pescoçada na relação de obras publicadas no Brasil), decidi começar por ali.
Há muito deixei de ser um homem jovem, mas isso não significa que eu não seja um jovem escritor. O livro de Vargas Llosa é um manual da prática do escrever romances. Um homem que dedicou toda a vida a isso tem muito a dizer sobre o seu ofício e ele faz isso de forma organizada, leve e bem humorada. Do seu Cartas a um jovem escritor (Cartas a un joven novelista), além das soluções apresentadas para as questões estruturais que aparecem quando se pretende contar uma história, a maior lição que tirei diz respeito à persistência na criatividade acima das técnicas da boa redação.
Um livro pequeno, mas de valor incalculável para quem deseja ou, como eu, descobre que precisa escrever.
“Toda vida merece um livro”, palavras de Mario Vargas Llosa.
Adorei esse post, acho que me identifiquei com o que vc escreveu e com o tema do livro. Acho que vc lê livros que meninos gostariam de ler, mas esse particularmente reflete seu lado doce. Eu leria um livro seu e também escreveria um livro, mas ainda me falta perspicácia...
ResponderExcluirVou escrever sobre alguns livros que li e que meninas gostariam de ler. Esse, "O Livro Selvagem", é para meninas e meninos, grandes ou pequenos.
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