sábado, 30 de junho de 2012

Carne trêmula


Gosto de ler contos e romances policiais, as “histórias de detetive”. Para mim é diversão garantida. Tem muita gente boa, inclusive no Brasil, produzindo esse tipo de literatura, que é uma coisa bem antiga. Desde Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle – os pioneiros mais conhecidos -, entre 1840 e 1880, que essas histórias vem alegrando a existência dos que gostam do gênero, como eu.

Apesar de não ser uma escritora novata, pois o seu primeiro romance é de 1964, Ruth Rendell só chegou ao meu conhecimento recentemente, coisa de uns cinco anos. Eu sabia quem ela era, sua reputação etc, mas não havia lido nenhum de seus livros. Comecei minha adoração por ela com o Carne trêmula (Live Flesh). Ter me iniciado na Senhora Rendell por esse livro foi uma combinação de acasos felizes: o conhecido filme do Almodóvar estar na minha memória, o encontro com o livro em uma livraria e ter acabado de ler um outro livro dela, o Uma agulha para o diabo (The fever tree and other stories). Mas não acabei de dizer que me iniciara na Ruth Rendell pelo Carne trêmula e revelo que já havia lido um outro livro dela? Calma! Às vezes precisaremos de mais de um livro para nos transformarmos num admirador. E esse pequeno livro, Uma agulha para o diabo, nem é um romance, mas um livro de contos.

Ruth Rendell está aí há muito tempo e já escreveu mais de cinquenta livros. Gostei de todos os que li, mas Carne trêmula é o mais forte. Ler esse romance policial é uma pancada. Não foi à toa que o Almodóvar o escolheu para fazer o filme. Logo me vi enfiado dentro da cabeça de um psicopata. Assim, a narrativa segue por quase trezentas páginas de agonia e crescente desespero vividos pelo personagem em sua rota de colisão com o mundo. A Sra. Rendell, me fez seguir até o fim, na carona de um maluco, como em um carro desgovernado, em busca do alívio à sua compulsão, o que só será possível no fundo do abismo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

6 mil em espécie


“Foi mandado a Dallas para matar um chefão crioulo chamado Wendell Durfee. Não tinha certeza se conseguiria fazer isso.”

Este aí é o primeiro parágrafo do livro 6 mil em espécie (The cold six thousand), o segundo livro da trilogia que o escritor James Ellroy encerrou com Sangue errante (Blood’s a rover). O primeiro da série é Tablóide americano (American tabloide), que ainda não li. Andou sumido das livrarias. Tive que comprar diretamente da editora. Já chegou, está na fila de espera. O número da senha dele é alto. Vai demorar um pouco até ser lido.

Comecei o comentário com uma amostra do texto do James Ellroy, onde são raros os parágrafos maiores do que este e esses tem pouco além de uma linha a mais. Telegráfico, seco, duro nas palavras e com os personagens, para Ellroy ninguém é bom o suficiente para merecer elogios ou mau que mereça danação inapelável. Bem antes de algum julgamento, são descartados pelo enredo ou eliminados, no mau sentido, por outro personagem. Homens ou mulheres, todos são mais ou menos sujos, fracos e maus. Os que parecem bons, o são até a primeira dobra de esquina. Depois, bem, recomendo a leitura dos livros para descobrir.

O que leva alguém a achar interessante uma coisa dessas: curtir personagens de caráter fraco? Ora, quem deixa de ler o que nossos jornais publicam exaustivamente sobre o que se passa nos corredores do poder na nossa querida República das Bananas? Então, imaginem um autor sem preguiça de pesquisar, trabalhando duro sobre esse tipo de material, escrevendo um conto de ficção sobre a era Kennedy. Melhor, sobre o que acontecia em baixo dos panos no fim daquela era. O resultado me levou ao nocaute!

O primeiro livro, Tablóide americano, se passa no tempo imediatamente anterior ao assassinato do John Kennedy e vai até aí. O segundo, 6 mil em espécie, do qual citei a frase, começa no dia em que o presidente é eliminado (qualquer um pode ter a sua vez) e vai até as vésperas da eliminação do irmão, Robert (mais um). O terceiro livro, Sangue errante, é sobre o complô para isso e mais a liquidação do Martin Luther King. Há heroísmo, coragem e cara de pau. Nenhum santo. Nem o King escapa.

Os livros são narrativas em estilo policial sobre conluios, armações descabeladas engendradas pela Cia, junto com o FBI, oficiais do exército, policiais bandidos, corruptos das agências antidrogas, trambiqueiros da máfia de Nova York e de Las Vegas, renegados cubanos da Cia e comunistas cubanos corruptos, também da Cia. Ellroy não esquece de mulheres bonitas se corrompendo nem de corrompidas tentando parecer boazinhas ou bonitas. Todo mundo quer vida fácil. Todo mundo quer poder. Todo mundo quer prazer rápido, inconsequente. Tudo imediato, junto e misturado.

No fim me dei conta de que aquilo tudo pode ter acontecido daquele forma. Por que não? Afinal, engenhosidade e audácia de bandido não tem limites. Estamos cansados de ver nos jornais e na tv. Esse é o ponto: comecei a ler um romance. De repente estava lendo um documento. Acabei convencido de que somos apenas os últimos a saber.

O nome do homem é James Ellroy. Recomendo a leitura de qualquer um de seus livros. Foi ele quem escreveu Los Angeles, Cidade Proibida (L. A. Confidential) - que deu origem a um bom filme com o mesmo título (de 1997) com Danny DeVito, Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce e Kim Basinger – e Dália Negra (The Black Dahlia), que também foi filmado. Esse último parece que é uma tentativa de purgar um trauma de infância, o assassinato nunca esclarecido de sua mãe.