sexta-feira, 15 de junho de 2012

6 mil em espécie


“Foi mandado a Dallas para matar um chefão crioulo chamado Wendell Durfee. Não tinha certeza se conseguiria fazer isso.”

Este aí é o primeiro parágrafo do livro 6 mil em espécie (The cold six thousand), o segundo livro da trilogia que o escritor James Ellroy encerrou com Sangue errante (Blood’s a rover). O primeiro da série é Tablóide americano (American tabloide), que ainda não li. Andou sumido das livrarias. Tive que comprar diretamente da editora. Já chegou, está na fila de espera. O número da senha dele é alto. Vai demorar um pouco até ser lido.

Comecei o comentário com uma amostra do texto do James Ellroy, onde são raros os parágrafos maiores do que este e esses tem pouco além de uma linha a mais. Telegráfico, seco, duro nas palavras e com os personagens, para Ellroy ninguém é bom o suficiente para merecer elogios ou mau que mereça danação inapelável. Bem antes de algum julgamento, são descartados pelo enredo ou eliminados, no mau sentido, por outro personagem. Homens ou mulheres, todos são mais ou menos sujos, fracos e maus. Os que parecem bons, o são até a primeira dobra de esquina. Depois, bem, recomendo a leitura dos livros para descobrir.

O que leva alguém a achar interessante uma coisa dessas: curtir personagens de caráter fraco? Ora, quem deixa de ler o que nossos jornais publicam exaustivamente sobre o que se passa nos corredores do poder na nossa querida República das Bananas? Então, imaginem um autor sem preguiça de pesquisar, trabalhando duro sobre esse tipo de material, escrevendo um conto de ficção sobre a era Kennedy. Melhor, sobre o que acontecia em baixo dos panos no fim daquela era. O resultado me levou ao nocaute!

O primeiro livro, Tablóide americano, se passa no tempo imediatamente anterior ao assassinato do John Kennedy e vai até aí. O segundo, 6 mil em espécie, do qual citei a frase, começa no dia em que o presidente é eliminado (qualquer um pode ter a sua vez) e vai até as vésperas da eliminação do irmão, Robert (mais um). O terceiro livro, Sangue errante, é sobre o complô para isso e mais a liquidação do Martin Luther King. Há heroísmo, coragem e cara de pau. Nenhum santo. Nem o King escapa.

Os livros são narrativas em estilo policial sobre conluios, armações descabeladas engendradas pela Cia, junto com o FBI, oficiais do exército, policiais bandidos, corruptos das agências antidrogas, trambiqueiros da máfia de Nova York e de Las Vegas, renegados cubanos da Cia e comunistas cubanos corruptos, também da Cia. Ellroy não esquece de mulheres bonitas se corrompendo nem de corrompidas tentando parecer boazinhas ou bonitas. Todo mundo quer vida fácil. Todo mundo quer poder. Todo mundo quer prazer rápido, inconsequente. Tudo imediato, junto e misturado.

No fim me dei conta de que aquilo tudo pode ter acontecido daquele forma. Por que não? Afinal, engenhosidade e audácia de bandido não tem limites. Estamos cansados de ver nos jornais e na tv. Esse é o ponto: comecei a ler um romance. De repente estava lendo um documento. Acabei convencido de que somos apenas os últimos a saber.

O nome do homem é James Ellroy. Recomendo a leitura de qualquer um de seus livros. Foi ele quem escreveu Los Angeles, Cidade Proibida (L. A. Confidential) - que deu origem a um bom filme com o mesmo título (de 1997) com Danny DeVito, Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce e Kim Basinger – e Dália Negra (The Black Dahlia), que também foi filmado. Esse último parece que é uma tentativa de purgar um trauma de infância, o assassinato nunca esclarecido de sua mãe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário