“Foi mandado a Dallas para matar um chefão crioulo chamado Wendell
Durfee. Não tinha certeza se conseguiria fazer isso.”
Este aí é o primeiro parágrafo do livro 6 mil em espécie (The cold
six thousand), o segundo livro da trilogia que o escritor James Ellroy encerrou
com Sangue errante (Blood’s a rover). O primeiro da série é
Tablóide americano (American tabloide), que ainda não li. Andou
sumido das livrarias. Tive que comprar diretamente da editora. Já chegou, está
na fila de espera. O número da senha dele é alto. Vai demorar um pouco até ser
lido.
Comecei o comentário com uma amostra do texto do James Ellroy, onde
são raros os parágrafos maiores do que este e esses tem pouco além de uma linha
a mais. Telegráfico, seco, duro nas palavras e com os personagens, para Ellroy
ninguém é bom o suficiente para merecer elogios ou mau que mereça danação
inapelável. Bem antes de algum julgamento, são descartados pelo enredo ou
eliminados, no mau sentido, por outro personagem. Homens ou mulheres, todos são
mais ou menos sujos, fracos e maus. Os que parecem bons, o são até a primeira dobra
de esquina. Depois, bem, recomendo a leitura dos livros para descobrir.
O que leva alguém a achar interessante uma coisa dessas: curtir
personagens de caráter fraco? Ora, quem deixa de ler o que nossos jornais
publicam exaustivamente sobre o que se passa nos corredores do poder na nossa
querida República das Bananas? Então, imaginem um autor sem preguiça de
pesquisar, trabalhando duro sobre esse tipo de material, escrevendo um conto de
ficção sobre a era Kennedy. Melhor, sobre o que acontecia em baixo dos panos no
fim daquela era. O resultado me levou ao nocaute!
O primeiro livro, Tablóide
americano, se passa no tempo imediatamente anterior ao assassinato do John
Kennedy e vai até aí. O segundo, 6 mil
em espécie, do qual citei a frase, começa no dia em que o presidente é
eliminado (qualquer um pode ter a sua vez) e vai até as vésperas da eliminação
do irmão, Robert (mais um). O terceiro livro, Sangue errante, é sobre o complô para isso e mais a liquidação do
Martin Luther King. Há heroísmo, coragem e cara de pau. Nenhum santo. Nem o
King escapa.
Os livros são narrativas em estilo policial sobre conluios, armações
descabeladas engendradas pela Cia, junto com o FBI, oficiais do exército, policiais
bandidos, corruptos das agências antidrogas, trambiqueiros da máfia de Nova
York e de Las Vegas, renegados cubanos da Cia e comunistas cubanos corruptos,
também da Cia. Ellroy não esquece de mulheres bonitas se corrompendo nem de corrompidas
tentando parecer boazinhas ou bonitas. Todo mundo quer vida fácil. Todo mundo
quer poder. Todo mundo quer prazer rápido, inconsequente. Tudo imediato, junto
e misturado.
No fim me dei conta de que aquilo tudo pode ter acontecido daquele forma.
Por que não? Afinal, engenhosidade e audácia de bandido não tem limites. Estamos
cansados de ver nos jornais e na tv. Esse é o ponto: comecei a ler um romance. De
repente estava lendo um documento. Acabei convencido de que somos apenas os
últimos a saber.
O nome do homem é James Ellroy. Recomendo a leitura de qualquer um de
seus livros. Foi ele quem escreveu Los
Angeles, Cidade Proibida (L. A.
Confidential) - que deu origem a um bom filme com o mesmo título (de 1997) com
Danny DeVito, Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce e Kim Basinger – e Dália Negra (The Black Dahlia), que
também foi filmado. Esse último parece que é uma tentativa de purgar um trauma
de infância, o assassinato nunca esclarecido de sua mãe.
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