segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quelés




O livro de Roberto Caminha foi uma grande surpresa. Logo nas primeiras páginas eu pensava: é uma preciosidade! É o seu primeiro livro e é ótimo. Um tipo de coisa de que eu gosto: um épico. Mais que isso, um épico amazônico. Mesmo já tendo vivido por lá e com idade suficiente para não duvidar de nada nesse mundo de Deus, não imaginava que houvesse tal história para ser contada e não me lembro de nada parecido entre os livros de aventuras que já li. (Alguém, mais esperto, deverá suspeitar, com razão, de que já li muitos)

Como os bons escritores do gênero – romance biográfico sobre aventureiros/desbravadores -, Roberto conseguiu recriar personagens convincentes, heróicos, íntegros e honestos na sua visão da vida e que, a medida em que o texto se desenvolve, transmitem empatia de tal forma que logo me senti um membro do bando, quer dizer, da família de conquistadores. Mas nossos heróis são daquele tipo que vão além do que a lei e a ordem regulam quando precisam defender os fracos e oprimidos, a si mesmos ou aos seus interesses territoriais, numa Amazônia em pleno ciclo da borracha, com bandidagem pululante. Aí, são de uma crueldade sem par, sem a menor preocupação com o “politicamente correto”, essa praga que nos assola. Em alguns momentos da narrativa eu e meu estômago tivemos que ser fortes, principalmente naquelas passagens onde entre os protagonistas apareciam os jacarés.

Mas afinal, o que é um quelé? Entendi que eram todos os que faziam parte da turma dos bons. Na verdade havia um personagem com esse apelido que acabou estendido a todos os membros do bando. Curioso, pesquisei no Google e descobri uma definição interessante: quelé vem do irlandês Keli, que significa pessoa viva e agressiva. Provavelmente o Quelé do livro não tem nada com os irlandeses, mas seria bem apropriado.

A leitura de Quelés me lembrou dos tempos em que se contavam histórias. É um livro de aventura bom de ler, com narrativa simples e direta, sem enfeites, onde Roberto Caminha, como um grande contador de histórias, narra a saga de seus antepassados.

sábado, 21 de julho de 2012

O livro das coisas perdidas


Era uma vez... É assim que começa a história do menino David, o herói de O livro das coisas perdidas, do escritor irlandês John Connolly.

Encanto desde a primeira linha, o autor conduz nosso herói pelas lendas e fábulas que um dia povoaram o imaginário das crianças, eu entre elas. Chapeuzinho Vermelho e o lobo mau, Branca de Neve e os sete anões, João e Maria, lobisomens e a Bela Adormecida, são algumas das figuras que o menino visita em sua saga em busca de uma verdade.

A narrativa é sombria, a melancolia a companheira de toda hora. As manifestações de crueldade e o seu resultado – uma constante, como acontecia nas fábulas originais –, colorem de vermelho o cenário. O caminho que David precisa percorrer, atrás da saída da situação em que se vê metido, é tortuoso e os perigos são mortais. Será que o bem triunfará sobre o mal? A dúvida nos perseguiu até as últimas páginas.

Leitura difícil de largar, hipnótica. Enquanto viajava pelo livro, lembrei da tia querida e do meu pai, que contavam histórias, muitas vezes terríveis, para os pequenos dormirem. Lembrei de fábulas e de que eu era criança. Revi o momento em que foi plantada a semente que me transformaria em um leitor.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

As Crônicas Marcianas


Fecho os olhos. As imagens vão se formando, vívidas. O chão, as dunas de areia, as colinas e as grandes montanhas distantes, tudo vermelho. Ferrugem. Há uma névoa rubra eterna na linha do horizonte. Em algumas épocas o vermelho se eleva bem acima do horizonte. É a estação das grandes tempestades. Ventos colossais fazem todos se esconderem nos subterrâneos para lá ficar por vários meses, até a natureza se acalmar na superfície.

Sobre a minha cabeça o céu é negro e cheio de estrelas. São tantas estrelas... como nenhum habitante da Terra jamais viu ou verá enquanto estiver mirando de lá o céu noturno. Aqui, onde o céu é sempre negro, a diferença entre o dia e a noite é o sol, que nasce bem menor do que na Terra. Brilhando como uma grande estrela junto com todas as outras contra o céu escuro. É noite quando o Sol desaparece, só que as estrelas continuam ali, agora tomando conta do espaço que cobre tudo. O seu brilho é tão intenso que é claro como o dia, dia marciano.

Nunca subestime o poder da leitura. Eu, que há muito estivera em Marte através d’As Crônicas Marcianas, pouco lembrava daquele planeta e este pouco ainda estava oculto pela névoa do tempo nas dobras do meu cérebro. Enquanto relia o livro do Ray Bradbury fui surpreendido por visões daquele lugar, por onde nunca andei.

Reler o livro me levou de volta a Marte e uma imensa nostalgia tomou conta do meu coração. Não são estranhos esses sentimentos? Nunca estive lá e, no entanto, é como se eu tivesse vindo de lá.

Tenho a mania de não ler introduções, prefácios ou apresentações, que geralmente estão no início dos livros, mesmo que sejam escritas pelo autor. Deixo isso para o final, se gostar do que li. Nesse caso meu mau hábito foi providencial. A leitura da apresentação feita pelo Bradbury teria certamente “estragado” tudo. Ele cita Aldous Huxley em seu comentário sobre As Crônicas Marcianas: “Você é um poeta. Escreveu um livro de poesia sobre Marte. É mais do que ficção, são mais do que meras palavras, são palavras mágicas. Você transformou Marte em um lugar real e nós todos vamos viajar para lá e não vamos voltar, tudo por sua culpa. Você chegou lá primeiro, foi o primeiro marciano. Obrigado por este livro.”

Obrigado por este livro, Ray Bradbury, descanse em paz. Nos vemos em Marte.