Fecho os olhos. As imagens vão se formando, vívidas. O chão, as dunas de
areia, as colinas e as grandes montanhas distantes, tudo vermelho. Ferrugem. Há
uma névoa rubra eterna na linha do horizonte. Em algumas épocas o vermelho se
eleva bem acima do horizonte. É a estação das grandes tempestades. Ventos
colossais fazem todos se esconderem nos subterrâneos para lá ficar por vários
meses, até a natureza se acalmar na superfície.
Sobre a minha cabeça o céu é negro e cheio de estrelas. São tantas estrelas...
como nenhum habitante da Terra jamais viu ou verá enquanto estiver mirando de
lá o céu noturno. Aqui, onde o céu é sempre negro, a diferença entre o dia e a
noite é o sol, que nasce bem menor do que na Terra. Brilhando como uma grande
estrela junto com todas as outras contra o céu escuro. É noite quando o Sol
desaparece, só que as estrelas continuam ali, agora tomando conta do espaço que
cobre tudo. O seu brilho é tão intenso que é claro como o dia, dia marciano.
Nunca subestime o poder da leitura. Eu, que há muito estivera em Marte
através d’As Crônicas Marcianas,
pouco lembrava daquele planeta e este pouco ainda estava oculto pela névoa do
tempo nas dobras do meu cérebro. Enquanto relia o livro do Ray Bradbury fui
surpreendido por visões daquele lugar, por onde nunca andei.
Reler o livro me levou de volta a Marte e uma imensa nostalgia tomou
conta do meu coração. Não são estranhos esses sentimentos? Nunca estive lá e,
no entanto, é como se eu tivesse vindo de lá.
Tenho a mania de não ler introduções, prefácios ou apresentações, que
geralmente estão no início dos livros, mesmo que sejam escritas pelo autor.
Deixo isso para o final, se gostar do que li. Nesse caso meu mau hábito foi
providencial. A leitura da apresentação feita pelo Bradbury teria certamente
“estragado” tudo. Ele cita Aldous Huxley em seu comentário sobre As Crônicas Marcianas: “Você é um
poeta. Escreveu um livro de poesia sobre Marte. É mais do que ficção, são mais
do que meras palavras, são palavras mágicas. Você transformou Marte em um lugar
real e nós todos vamos viajar para lá e não vamos voltar, tudo por sua culpa.
Você chegou lá primeiro, foi o primeiro marciano. Obrigado por este livro.”
Obrigado por este livro, Ray Bradbury, descanse em paz. Nos vemos em
Marte.
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