Preciso urgentemente começar a fazer anotações sobre o que me leva a querer
um livro. Nem sempre me lembro exatamente do que me fez comprar um. A única
evidência que fica é a de sempre: as resenhas que leio o tempo todo. Mas a
pista se perde nesse ponto. Não sou capaz, na maioria das vezes, de seguir
farejando para descobrir o que, naquilo que li sobre o livro, me fez desejar a
sua leitura. Felizmente, é raro me dar mal. A obra de Helen Simonson, A última façanha do major Pettigrew, é
um desses casos.
Se o objetivo desse escrito fosse um resumo, daria para dizer que é sobre
um livro de amor e ponto. Pior, relendo algumas resenhas me dou conta de que
aquilo não seria do meu interesse. Parecem falar de um romance água com açúcar.
Mas isso seria muito pouco e uma injustiça para a autora de um texto absolutamente
delicioso. Nesses tempos, quando tanta magia, anjos caídos, vampiros e
lobisomens em aventuras descabeladas pululam nas páginas da literatura mundial,
incluindo aí escritos de bons e jovens autores brasileiros do gênero, encontrar
um livro que fale de pessoas em carne e osso, sem nenhum recurso pirotécnico
para atingir seus desígnios, foi uma doce surpresa.
O major, do título do livro, é um militar inglês aposentado, obviamente
metódico, que mora numa pequena comunidade não muito distante de Londres, o que
não nos surpreende, já que nada pode ser muito distante de nada naquele país
tão pequeno se comparado ao nosso Brasil, não é verdade? Entretanto, desde que
sua esposa se fora, desta vida, é claro, nosso herói lá vive há seis anos
solitariamente. Para aumentar ainda mais seu isolamento, e acrescentar um
problema à sua existência, o único irmão também morre. Com isso as suas preocupações
passam a ser duas, manter o ritual do seu chá das cinco e tentar reunir ao seu valioso
rifle de caça o seu par gêmeo que o pai havia deixado aos cuidados do irmão. A
cunhada discorda, com veemência, de olho no valor da antiguidade.
A solidão logo lhe prega uma peça ao fazer com que se interesse pela dona
da pequena mercearia do vilarejo, uma viúva paquistanesa culta e bonita. A
partir disso os problemas, que antes eram poucos, se multiplicam velozmente,
com direito a reação dos filho (de um e de outro), de parte da sociedade local
e da família da namorada.
Quando me dei conta estava lutando ao lado do major Ernest Pettigrew,
página a página, naquele campo de batalha pantanoso e minado dos preconceitos,
dos mal entendidos e dos desencontros no amor.
Acho que decidi pela compra desse livro porque estava preocupado em
trazer para casa coisa diferente do que estava lendo na ocasião. Algo por que
minha linda companheira também pudesse se interessar. Devia estar cansado das muitas
pauladas em Westeros, o lugar das batalhas e intrigas da série de livros do
George Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo,
das atrocidades relatadas em alguns livros sobre a máfia, sobre a revolução
americana e, de quebra, um ou dois criminais com barbaridades envolvendo psicopatas.
Também tinha acabado de ler dois da trilogia do James Ellroy sobre as traquinagens
da máfia americana, com rebeldes cubanos desalmados e os bandidos da CIA e do
FBI, os livros 6 mil em espécie e Sangue errante . Ufa!
A correria do major Pettigrew perseguindo a felicidade foi um bálsamo.
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