sexta-feira, 11 de maio de 2012

A última façanha do major Pettigrew


Preciso urgentemente começar a fazer anotações sobre o que me leva a querer um livro. Nem sempre me lembro exatamente do que me fez comprar um. A única evidência que fica é a de sempre: as resenhas que leio o tempo todo. Mas a pista se perde nesse ponto. Não sou capaz, na maioria das vezes, de seguir farejando para descobrir o que, naquilo que li sobre o livro, me fez desejar a sua leitura. Felizmente, é raro me dar mal. A obra de Helen Simonson, A última façanha do major Pettigrew, é um desses casos.

Se o objetivo desse escrito fosse um resumo, daria para dizer que é sobre um livro de amor e ponto. Pior, relendo algumas resenhas me dou conta de que aquilo não seria do meu interesse. Parecem falar de um romance água com açúcar. Mas isso seria muito pouco e uma injustiça para a autora de um texto absolutamente delicioso. Nesses tempos, quando tanta magia, anjos caídos, vampiros e lobisomens em aventuras descabeladas pululam nas páginas da literatura mundial, incluindo aí escritos de bons e jovens autores brasileiros do gênero, encontrar um livro que fale de pessoas em carne e osso, sem nenhum recurso pirotécnico para atingir seus desígnios, foi uma doce surpresa.

O major, do título do livro, é um militar inglês aposentado, obviamente metódico, que mora numa pequena comunidade não muito distante de Londres, o que não nos surpreende, já que nada pode ser muito distante de nada naquele país tão pequeno se comparado ao nosso Brasil, não é verdade? Entretanto, desde que sua esposa se fora, desta vida, é claro, nosso herói lá vive há seis anos solitariamente. Para aumentar ainda mais seu isolamento, e acrescentar um problema à sua existência, o único irmão também morre. Com isso as suas preocupações passam a ser duas, manter o ritual do seu chá das cinco e tentar reunir ao seu valioso rifle de caça o seu par gêmeo que o pai havia deixado aos cuidados do irmão. A cunhada discorda, com veemência, de olho no valor da antiguidade.

A solidão logo lhe prega uma peça ao fazer com que se interesse pela dona da pequena mercearia do vilarejo, uma viúva paquistanesa culta e bonita. A partir disso os problemas, que antes eram poucos, se multiplicam velozmente, com direito a reação dos filho (de um e de outro), de parte da sociedade local e da família da namorada.

Quando me dei conta estava lutando ao lado do major Ernest Pettigrew, página a página, naquele campo de batalha pantanoso e minado dos preconceitos, dos mal entendidos e dos desencontros no amor.

Acho que decidi pela compra desse livro porque estava preocupado em trazer para casa coisa diferente do que estava lendo na ocasião. Algo por que minha linda companheira também pudesse se interessar. Devia estar cansado das muitas pauladas em Westeros, o lugar das batalhas e intrigas da série de livros do George Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo, das atrocidades relatadas em alguns livros sobre a máfia, sobre a revolução americana e, de quebra, um ou dois criminais com barbaridades envolvendo psicopatas. Também tinha acabado de ler dois da trilogia do James Ellroy sobre as traquinagens da máfia americana, com rebeldes cubanos desalmados e os bandidos da CIA e do FBI, os livros 6 mil em espécie e Sangue errante . Ufa!

A correria do major Pettigrew perseguindo a felicidade foi um bálsamo.

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