quinta-feira, 29 de março de 2012

O Livro Selvagem

De vez em quando aparece uma coisa assim na vida da gente. Felizmente, em se tratando de livros, isso vem acontecendo com frequência na minha: encontrar um encantador.

Provavelmente é porque não me canso no caçar livros. Não passo um dia sem pesquisar por aí, nos canais disponíveis (hoje, mais do que nunca, eles são muitos e variados), sobre novos livros e seus escritores. Tem valido a pena.

Pouco tempo atrás li uma resenha sobre um novo livro, de um autor que não conhecia, e entendi que ele havia escrito uma história sobre um menino e suas aventuras na fantástica biblioteca de seu tio, onde há livros surpreendentes, ou melhor, “vivem”. Eles se movimentam, trocam de lugar pela biblioteca do tio. Podem ser bons ou maus e alguns até se escondem de leitores com quem implicam, essas coisas de quem tem sentimentos. O que sabemos que os livros tem, não é mesmo? Como eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso, comprei o bicho, quer dizer, o livro. Curioso para descobrir o que o autor tinha escrito sobre o tal “O Livro Selvagem”.

Juan Villoro, escritor mexicano, surpreende com seu romance fabuloso sobre o menino Juan e sua inesgotável disposição na procura do livro selvagem. Aquele que nunca havia se deixado ler e que ninguém sabia o que estava impresso em suas páginas, conforme afirmava seu tio. O livro escolheria seu primeiro leitor e Juan estava certo de que seria o eleito, mesmo que fosse na marra. (O autor escreve - e quem sou eu para duvidar disso – em uma narrativa autobiográfica.)

“O Livro Selvagem” é para sempre. É para ser guardado junto dos meus favoritos e que nunca mais poderei deixar de recomendar aos amigos, principalmente aos que tem jovens leitores sob sua guarda.

terça-feira, 20 de março de 2012

Fundação de Isaac Asimov

Gosta de viajar? Consegue pensar em lugares diferentes para onde gostaria de ir? Buenos Aires, Montevidéu, Acapulco, Londres, Paris ou Nova York? Que tal uma viagem em direção ao centro da galáxia e do império humano, que então ocupa mais de vinte milhões de planetas? O que acha de realizar saltos pelo hiper-espaço? E fazer, em um par de horas, viagens que de outra forma levariam milhares ou até milhões de anos? A maior parte de nós, trogloditas espaciais, não consegue nem imaginar o que Isaac Asimov criou e se transformou num dos romances mais impressionantes sobre um futuro distante da humanidade. Ficção científica? Claro, o que outra coisa mais poderia ser?

A viagem patrocinada pelo autor começa no centro de uma galáxia, que já nem é mais a Via Láctea, no planeta Tantor. Dezenas de milhares de anos no futuro, a Terra e o Sol ficaram tão para trás na história que não passam de uma lenda sobre as origens da raça humana. Pesquisadores e arqueólogos dedicam vidas à sua procura. Ninguém sabe ao certo onde fica. Alguma coisa semelhante, para nós, ao lugar preciso na África de onde vieram nossos longínquos antepassados homo sapiens. Alguém já sabe onde exatamente fica isso? Ninguém tem certeza.

Quem tem certeza de que daqui a mais de vinte mil anos não será possível existir um planeta como Tantor, que no seu auge terá sua superfície de 194 milhões de quilômetros quadrados, totalmente ocupado por uma única e contínua cidade com uma população de mais de quarenta bilhões de pessoas? Tantor, no romance de Asimov, é o centro administrativo do império humano, governante de várias galáxias e suas centenas de milhões de planetas habitáveis, com centenas de bilhões de súditos.

Isaac Asimov, como bom ficcionista, assume que tudo é possível se a imaginação inventa. E ele o faz com força e qualidade. Afinal, não teve um escritor famoso que escreveu uma história onde um sujeito virava um inseto gigante? Kafka, não é mesmo?

O autor de Fundação não fica só nisso, de inventar novos mundos. Ele se embrenha numa cadeia de revelações sobre o futuro do futuro da humanidade. Cria uma nova ciência, a psico-história, e me jogou em vários saltos de milhares de anos à frente do próprio tempo de Tantor.

O que mais me impressionou no livro Fundação foi a qualidade da trama criada pelo Asimov. Ele inventa situações limites e as soluciona apresentando reviravoltas como somente um homem sábio as poderia engendrar.

Não fique triste quando se aproximar do fim do livro. Volte à livraria e compre os outros dois volumes da trilogia, Fundação e Império e Segunda Fundação.

Gostei tanto da ficção do Asimov que emendei direto na leitura de, O Fim da Eternidade, onde paradoxos sobre viagens no tempo é mato. Mas isso já é assunto para outra hora.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Guerra dos Tronos e outros romances medievais.

Tenho uma queda fatal por livros de história e romances passados na idade média. Podem ser registros sobre a história da época, romances históricos ou simples invencionices de um escritor, para mim não faz diferença. Eu gosto. Claro que faço algumas restrições, a principal delas, óbvio, é a qualidade do texto. Mas essa exigência é coisa que venho desenvolvendo mais recentemente (as vezes lamento isso). Lamento porque quando era mais novo lia qualquer coisa com deleite. Hoje, mais experiente com a linguagem escrita (e por isso mais besta), me surpreendo com dificuldades em certas obras, cujo assunto me interessa, mas onde o autor (ou o tradutor) não fizeram um bom trabalho. Quer um exemplo? Feliz da vida, achando que tinha descoberto um tesouro, pois são treze volumes, parti para cima da Saga dos Plantagenetas escrita pela escritora inglesa Eleanor Alice Burford Hibbert, sob o pseudônimo de Jean Plaidy. Não consegui, tamanha a chatice. Cheguei a ler (pior, comprei) os três primeiros livros da série. Desisti. Se alguém conseguir suportar a maratona garanto uma mariola. Outra restrição importante é o excesso de maionese na salada ou da fantasia exagerada: nunca me interessei por histórias com dragões e outros quejandos. Há romances mais modernos, com esse bicho e outras metáforas, dos quais gostei, mas isso é coisa para outra conversa.

O interesse pelo medieval se firmou por volta dos meus dez anos de idade quando, depois de ler Robin Hood(1) e Ivanhoé(2), tendo gostado muito, descobri o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Desde aquele momento procuro o tempo todo por histórias medievais. Não é fácil.

Não é complicado ler sobre a idade média, se você se contentar com o que existe a partir dos tempos de Carlos Magno (642– 714 d.C.). Mas isso já não é quase na metade dela? Algum exagerado pode perguntar e é verdade (a metade da idade média seria por volta do ano 1.000 d.C.). É escasso, difícil de achar e ler material sobre o que aconteceu entre os séculos V e VIII. Uma explicação simplificada para isso seria a queda de Roma (476 d.C.) e a conseqüente “esculhambação” instaurada na Europa. Eram bárbaros por todo lado, invadindo aqui, incendiando ali e que não deixavam em paz os candidatos a escriba que poderiam ter registrado os fatos. Se eles não se trancassem num mosteiro encarapitado no alto de alguma montanha - o que tornava seu trabalho de cronistas bem mais difícil de ser realizado - corriam o risco de serem mortos ou escravizados. Não é a toa que aqueles dias ficaram conhecidos como Idade das Trevas.

De alguns anos para cá uma excelente safra de romances com o tema foi publicada.

O mais famoso nesses dias é A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones), que é o título do primeiro volume de uma série prevista para sete de As Crônicas de Gelo e Fogo* (A Song of Ice and Fire), do escritor americano George R. R. Martin. Aqui há bastante fantasia e até dragões, mas ainda não chegaram a me incomodar.

Faz parte das minhas favoritas as Crônicas Saxônicas** (The Saxon Stories). O livro O Último Reino (The Last Kingdom) é o primeiro de prováveis sete volumes (até agora foram lançados seis no Brasil, o sétimo está para sair na Inglaterra e Estados Unidos) de um épico histórico do inglês Bernard Cornwell. O período em que é tocada a narrativa dos livros se passa durante uma das várias tentativas dos dinamarqueses de conquistar a ilha inglesa, ali pelo final dos anos 800.

Obra prima: As Crônicas de Artur (The Artur Books), com seus três volumes: O Rei do Inverno (The Winter King), O Inimigo de Deus (Enemy of God) e Excalibur, também do Bernard Cornwell, lambem as beiradas da história da Inglaterra e da Bretanha (norte da França) no tempo em que as legiões romanas haviam acabado de deixar a ilha para saírem da história. Portanto é uma rara oportunidade de se ler um romance da Idade das Trevas.

O romance A Longa História é um exemplo de maravilhosa literatura que tem a idade média como cenário. O detalhe, que leva esse romance a ser um tesouro raríssimo, difícil de se encontrar similar, é que o autor, Reinaldo Santos Neves, é brasileiro. O escritor capixaba também tem outros livros com temática medieval. Destaco A Folha de Hera, Um Romance Bilingue (três volumes, todos escrito em português e inglês). Impossível deixar de ler.

O Bernard Cornwell ainda tem outros cinco livros sobre a idade média. Todos ótimos e situados no período da Guerra dos Cem Anos (de 1337 a 1453) entre ingleses e franceses. Três compõem a trilogia A Busca do Graal, que teve agora uma continuação num quarto volume, que não trata mais do Santo Graal, mas da espada sagrada de São Pedro, 1356 (ficando algo como os três mosqueteiros que eram quatro). O primeiro volume é O Arqueiro (Harlequin - The Archer’s Tale), o segundo O Andarilho (Vagabond) e o terceiro é O Herege (Heretic). O quinto e último dos livros sobre a Guerra dos Cem Anos é Azincourt. Esse conta a história da épica batalha (que empresta o nome ao livro) de 25 de outubro de 1415, quando cinco mil arqueiros de arcos longos ingleses, protegidos por cerca de novecentos homens de armas (cavaleiros desmontados) deram uma surra memorável na fina flor da cavalaria francesa que compunha um exército de mais de vinte mil homens (há controvérsia sobre os números dessa batalha). Naquela época os arcos longos ingleses eram uma espécie de bomba atômica dos campos de batalha. Leitura imperdível.

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1. A versão mais conhecida da história de Robin Hood foi escrita e ilustrada pelo americano Howard Pyle (1853-1911), mas até Monteiro Lobato (1882-1948) escreveu uma, publicada na antiga Coleção Terramarear.
2. O autor de Ivanhoé é Sir Walter Scott (1771-1832).
(*) Os outros volumes da série Crônicas de Gelo e Fogo são: A Fúria dos Reis (A Clash of Kings), A Tempestade de Espadas (A Storm of Swords), O Festim dos Corvos (A Feast for Crows) e o quinto volume, A Dança dos Dragões (A Dance with Dragons). Os livros The Winds of Winter (sexto volume da série que está em fase final de redação, com lançamento previsto em 2015) e A Dream of Spring, o sétimo volume, que encerrará a série, sem previsão de lançamento (desconfio que ainda nem foi escrito).
(**) Outros volumes da série Crônicas Saxônicas são: O Cavaleiro da Morte (The Pale Horseman), Os Senhores do Norte (The Lords of the North), A Canção da Espada (Sword Song), Terra em Chamas (The Burning Land) e Morte dos Reis (Death of Kings), lançado em 2011 nos Estados Unidos e Grã-Bretanha e recentemente no Brasil. O autor jura que produzirá outros volumes, pelo menos até o sétimo. Não tenho tanta certeza disso.

sábado, 17 de março de 2012

O Ladrão no Fim do Mundo

Joe Jackson, o autor do livro, envereda pelo relato das aventuras do personagem principal da história do “roubo” das sementes da Hevea brasiliensis – a seringueira, ou a árvore da borracha - e nos leva com ele para, de camarote, assistirmos a saga do sir Henry Wickham (1846-1928). O ladrão, mencionado no título (The Thief at the End of the World), é conhecido na Inglaterra como o pai da borracha e no Brasil como “o algoz do Amazonas”.

Vamos com Henry, mundo afora, em suas viagens verdadeiramente descabeladas. O sujeito, antes de tudo, era um inquieto. Primeiro tenta a vida (não dá certo) no Caribe e, depois de peripécias, chega ao Brasil pelos rios amazônicos que descem da Colômbia até Manaus, via Rio Negro. Como se dizia antigamente, ele devia ter bicho carpinteiro. O autor teve tanto sucesso em me carregar junto das andanças do nosso herói que, lá pelas tantas, me sentia cansado e com uma ansiedade devido às agruras da sua vida nos trópicos.

Aventureiro, no velho estilo inglês, Henry não recusava nenhum tipo de empreitada, desde que pudesse manter a esperança de recuperar as finanças da família. Falta de planejamento e azar foram seus companheiros constantes. Assim, acabou como seringueiro no Pará de onde (depois de perder o pouco que conseguira amealhar, mais a mãe, a sogra e uma jovem empregadinha inglesa para as doenças e a selva) é salvo pela rainha Vitória, mais precisamente pelo Jardim Botânico dela. Haviam aprovado, finalmente, seu projeto de levar sementes da borracha brasileira para a Malásia e Índia. Com isso, levanta uma boa grana e pode voltar à Inglaterra.

É também interessante a parte do livro que descreve a vida na riquíssima Manaus da época da borracha e outra que conta da aventura do Henry Ford, aquele mesmo da indústria automobilística, em uma tentativa de estabelecer uma colônia americana no Pará, onde pretendia “domar” a seringueira com plantações como as que já estavam produzindo borracha na Malásia com sucesso. Duas coisas que muitos brasileiros desconhecem.

Aliviados, pensamos: depois dessa encomenda de sua majestade, acabam-se as dificuldades do nosso herói. Nada disso! Henry, como um catador profissional de problemas, começa novas andanças pelo mundo e a coisa segue cada vez mais difícil.

Mais não posso contar senão alguém pode achar que estou estragando a leitura desse livro instrutivo, divertido e fabuloso.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O Psicopata Americano

Um livro estranho. Faz algum tempo que terminei de ler e ainda sinto dificuldade de escolher meu voto. Seria tão fácil se o título definisse tudo... “O psicopata americano” (American Psycho).

Na capa não há como deixar de ler uma frase do Norman Mailer: “Como não se vê há anos, um romance profundo e com ares de Dostoievski”. Tenho certeza de que os homens já superaram em muito a capacidade do escritor russo em estabelecer os limites da crueldade humana. Ele não tinha como imaginar a vida numa cidade como Nova York do final do século 20, nem do que seriam capazes alguns sujeitos entediados que perambulam por lá.

O romance é denso o tempo todo. Ironia cruel da primeira a última página. Difícil imaginar a ferocidade do protagonista, até que me lembrei do que já li e assisti, em reportagens e documentários, sobre psicopatas da vida real.

O autor, o Bret Easton Ellis, hábil, foi me anestesiando com humor negro e banalidade brutal e delirante até me fazer ler o livro todo sem sentir dor. Mas não há como deixar de carregar, por boa parte da narrativa, aquela “bola” que se forma entre o estômago e a boca.

Ele começou me enrolando com descrições infinitas de roupas, penteados e as atitudes vazias dos personagens, ao ponto de me deixar enjoado. “Eu estava vestindo um terno de lã xadrez quadriculado com calças pregueadas da Hugo Boss, gravata de seda, também da Hugo Boss, camisa de algodão trançado mercerizado da Joseph Abboud, sapatos da Brooks Brothers. (...) balançando minha maleta de couro da Bottega Veneta”. Isso vai pelo livro todo. Qualquer e toda nova cena é precedida pela descrição minuciosa de como cada um está vestido e penteado etc. Quando as coisas começam de fato a esquentar você já está achando que qualquer negócio é melhor do que aquela chorumela de futilidades. É perturbador.

Foi filmado em 2000 com o Christian Bale no papel principal – aquele ator com a boca meio mole, o atual Batman. Como não vi filme, apenas imagino como pode ser passado em circuito comercial normal sem ter sofrido castração. Mas Hollywood é capaz de quase tudo.

Parece que o livro causou polêmica quando foi lançado em 1991. Protestos feministas e pressões contra sua publicação fizeram uma editora desistir na última hora. Eu não duvido de nada disso.

Tony & Susan

Susan conhecia Edward desde sempre. Eram vizinhos e muito jovens quando ele ficou órfão. Anos depois, enquanto cursavam a universidade, se casaram.

Edward precisava escrever, queria viver do ofício de escritor. Enquanto estiveram juntos isso não foi possível. Nada que prestasse saia da sua cabeça. Um pouco por causa disso e mais as outras coisas da convivência com um Edward frustrado e de temperamento difícil fez o casamento acabar. Cada um seguiu seu caminho.

Vinte anos mais tarde, Susan recebe um pacote com os originais do livro de Edward. Ele considera sua opinião muito importante.

Edward apresenta a Susan a história de Tony e a coisa toda se precipita.

Austin Wright mostra ser um grande contador de histórias. Seu romance “Tony & Susan” é de tirar o fôlego. Ele contou a história de Susan para mim enquanto contava a de Tony para Susan (e para mim). Até aí nada extraordinário, já li muitas histórias que contam outras histórias, mas foi a primeira vez que me senti como se estivesse numa corrida de automóveis sem freios. Queda livre. Vertigem, é uma palavra apropriada ao que se passa com o Tony. Há longos momentos de terror e incertezas. Não há reviravoltas nem truques que nos salve. Tive que fazer força sempre que precisei largar o livro para dormir.

Austin Wright, geólogo americano, mas professor de literatura e língua inglesa, viveu a maior parte de sua vida em Cincinnati. Morreu em 2003 aos 80 anos de idade e é de se espantar que poucos tenham tomado conhecimento de sua produção literária, pelo menos aqui no Brasil.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O forte

Em 1779 os ingleses estavam perdendo a guerra para os rebeldes que lutavam pela independência dos Estados Unidos. Nesse livro, “O Forte” (The Fort), Bernard Cornwell nos conta o que aconteceu quando os ingleses, numa manobra que tinha como objetivo dar mais apoio aos colonos ainda leais ao seu rei George, chegaram num lugarejo de nome esquisito, Majabigwaduce, na foz do rio Penobscot, no que hoje é o Maine e começaram a construção do que seria o Forte George (na época aquilo tudo era Massachusetts).

Num lado do ringue, soldados profissionais do rei na defensiva - com suas vistosas casacas vermelhas - comandados por um lord escoces, um autêntico gentleman, tentam não morrer sem interferir na vida da população civil. No outro lado, uma força rebelde muito maior com ordens para “aprisionar, matar ou destruir” qualquer um que estivesse vestindo um uniforme vermelho. No centro, um vilarejo, onde habitantes civis se esforçavam para levar sua vidinha, simpáticos a sua majestade, em meio à batalha.

Bernard Cornwell é um mestre na descrição de campanhas militares e batalhas. Aí, alguém pode pensar que um livro desse tipo só deve agradar a quem gosta do assunto, guerras e guerreiros, certo? Errado. Ele tece, desde a primeira linha, um romance histórico cheio de ação. Claro que o autor não poderia fazer muita coisa se o ocorrido na época não fosse de uma ajuda impressionante.

Reviravoltas, heroísmo em ambos os lados e personagens fascinantes e decisivos é mato nas mãos desse escritor inglês. O resultado é a descrição, empolgante, de uma das batalhas mais surpreendentes da história do exército americano. É leitura para quem gosta de perder o sono.

O cemitério de Praga

Umberto Eco acabou acertando, finalmente e novamente, no meu gosto. Depois de ler “O Nome da Rosa”, trinta anos atrás, e de ter gostado muito do livro, tinha saído frustrado da tentativa de ler “Baudolino”. O abandonei logo, depois de poucas páginas. Desconfiado, mas convencido por algumas resenhas que havia lido na internet, comprei “O Cemitério de Praga” (Il cimitero di Praga). (No fundo achava mais justo que o Umberto Eco me enviasse um exemplar grátis para ver se, dessa vez, engrenava.)

Preparado para uma leitura em ritmo vertiginoso, conforme indicavam os comentários, acabei sendo posto novamente à prova. Bravura, foi o que salvou o Umberto Eco. Bravura de minha parte, claro. Na verdade o início do livro é cativante. Mas em seguida entra em um “mata-burro”, cai num ritmo que me lembrou o “Baudolino”. A leitura fica xarope. Felizmente não me entreguei ao impulso de abandonar o texto. Prossegui. Funcionou. Logo o autor engrenou na criação da trama, me recapturou e lá fui eu, levado de roldão, acompanhando personagens históricos, como Freud, Dreyfus e Garibaldi, numa salada com maçons, católicos, satanistas, judeus e falsos magos em diversas conspirações, numa mirabolante tese sobre a composição dos Protocolos dos Sábios de Sião.

Culto, divertido, hilário. Gostei e recomendo.

P.S.: depois dessa vou ter que voltar e dar uma nova chance ao Baudolino.

Marina

É principalmente uma história de amor. Carlos Ruiz Zafón escreveu um pequeno romance – são pouco mais de 180 páginas – de aventura, terror, ficção científica e sobre o amor. Amores dark.

O personagem principal, Óscar, um rapaz tímido, desenxabido e solitário na Barcelona do século passado, percorre em suas ruas tortuosas, os caminhos da descoberta da paixão e das ansiedades causadas pelos seus desencontros. Também é por lá que leva os sustos, foge, reage e luta contra as ameaças proporcionadas pela cabeça ágil do Carlos Ruiz.

Talvez seja proposital, quem sabe para surpreender o leitor distraído, mas em nenhum lugar, seja na capa, orelhas ou nota do autor, é mencionado o fato de que é um livro de aventuras, terror e ficção científica. Começando pelo nome, “Marina”, nada indica o gênero a que pertence o livro. Fui descobrindo aos poucos, à medida que avançava por suas páginas e por Barcelona. Em algum momento cheguei a duvidar da qualidade obra. Um trabalho menor, pensei. Quase desisti. Mas, como isso não é coisa que costumo fazer, - desde a tentativa fracassada de ler “Baudolino”, do Humberto Eco - segui em frente para ver no que ia dar. Não me arrependi.

Não há vampiros, lobisomens nem anjos caídos, mas tem bastante suspense, mistério, alguma fantasia e amor em variadas formas, algumas terríveis.

A história é contada de forma elegante, estruturada com inteligência e os personagens são espertos. Demais até, em muitas passagens, ficando, nesses momentos, difícil de engolir que aquilo tudo se passa com um casal de adolescentes em seus quinze anos de idade. A partir do instante em que o terror e o suspense invadem a narrativa, tem-se a sensação de que os protagonistas são dois adultos experientes no trato dos assuntos detetivescos da história. Isso me incomodou. Não o suficiente para abandonar o livro. A criatividade do escritor é marcante, a história é boa e, do seu jeito, bem contada, mas triste.

Acabei sofrendo um pouco junto com Óscar.

Estrada Escura

Ao terminar de ler esse livro do Dennis Lehane pensei: o cara é bom. Era o segundo livro dele que li e gostei. O primeiro foi “Paciente 67”, filmado pelo Scorsese, com o nome de “Ilha do Medo” (Shutter Island) com o Leonardo DiCaprio.

Outro livro dele que não li, mas vi o filme foi “Sobre meninos e lobos” (Mystic River), do Clint Eastwood. O filme é bom, o livro deve ser melhor.

Vi também outro filme baseado num livro dele (não li o livro), “Gone, baby, gone” (sem tradução), dirigido pelo Bem Affleck com o irmão dele, o Casey Affleck, no papel do detetive particular Patrick Kenzie. O filme é ótimo. A história do desaparecimento de uma garotinha de quatro anos que é procurada pelo detetive e sua assistente e namorada até o desfecho improvável.

É aí que começa o livro que acabei de ler, o “Estrada escura”, Moonlight Mile, no original. (Acho bom citar os títulos originais, as traduções passam perto mas raramente acertam na mosca.) É a história do desaparecimento da mesma garota, agora com dezesseis anos, e o envolvimento do casal de detetives, Patrick Kenzie e Angela Gennaro, novamente, na solução do caso.

O cara é bom, o livro é bom, mas não é excelente, como é o “Paciente 67”.

Mas o livro é lindo. (Como é, livro lindo?) Sim, uma pequena peça de bom gosto gráfico/editorial. Capa e diagramação elegantes e uma tinta vermelha, aplicada no corte das páginas, dão ao livro uma aparência única. (Tenho dois outros dessa série, da Cia das Letras, ambos da Patrícia Highsmith, que tem o mesmo projeto gráfico e cores variadas. Um tem a cor violeta e o outro é negro. Lindos!) Ao manusear um objeto dessa qualidade me ocorreu que isso os livro digitais jamais poderão trazer para os seus leitores.

Passei bons momentos, durante quatro dias, com o “Estrada Escura”. Distraiu, coisa que andamos precisando cada vez mais nesses dias de leituras tenebrosas nos jornais diários. A história é interessante, a narrativa rápida e tem uma boa carga de ironia (forçada, em algumas passagens). Porém manteve o tempo todo em meu coração a sensação de que foi escrito com pressa, como se tivesse prazo apertado para terminar. Em alguns momentos comecei a ficar nervoso com as descrições das roupas dos personagens, fulano vestia tal jeans com tal camisa, calçava tal sapato etc, mas acho que é coisa minha, que tinha acabado de ler o “O Psicopata Americano” do Bret Easton Ellis onde isso, de descrever roupas e acessórios, é levado ao paroxismo. Traumatizante! Mas é assunto para outra hora.

Nesse o Dennis Lehane me deixou na mão esperando por mais elaboração, o que no livro filmado pelo Scorsese, o tal da “Ilha do Medo”, tem de sobra. Algumas reviravoltas são previsíveis. O final é legal.

Crônicas Saxonicas

No final do século IX, entre os anos de 870 e 900, os dinamarqueses estavam muito empenhados em finalizar a conquista do lugar que hoje conhecemos como Inglaterra. Na verdade já ocupavam grande parte da ilha. A Nortúmbria, ao norte, a Ânglia Ocidental e boa parte da região central, a Mércia, já estavam sob seu domínio. O rei de Wessex, na época um tal de Alfredo, lutava para não deixar cair nas mãos dos nórdicos o último reino governado pelos saxões. Seu projeto de vida era a reconquista dos territórios em poder dos vikings, sua unificação e conversão ao cristianismo. Os dinamarqueses, que não haviam encontrado dificuldades para invadir as outras regiões, tiveram em Alfredo e sua turma um osso duro de roer. Este, por sua vez, encontrava dificuldades na imposição de sua religião ao seu próprio povo. A luta era árdua nas duas frentes.

Este é o cenário que Bernard Cornwell, baseado em fatos da história da Inglaterra, utiliza para escrever um romance épico - até agora em seu sexto volume e com previsão para sete. Em meio às reviravoltas e entreveros entre os contendores da disputa territorial, vai contando as peripécias de Uhtred, um garoto dinamarquês, seqüestrado e criado pelos saxões, que acaba lutando ao lado dos seus captores contra seus conterrâneos.

A vida devia ser muito difícil e suja naqueles tempos. Descrições de batalhas campais. Homens se borrando de medo em paredes de escudos. Lama, entranhas, sangue e merda para todos os lados. Pernas, braços e cabeças decepadas. Lanças, espadas e flechas cortando e furando todo mundo. Invasões de vilas e cidades. Meninas e freiras nuas. Rapinagem e mulheres sofrendo as consequências da derrota de seus homens. Felizmente, amenizando um pouco a barbárie, bravatas inteligentes, o bom humor britânico e a ironia estão lá o tempo todo.

Sou suspeito para falar de romances medievais, porque são os meus favoritos. Sou suspeito para falar de Bernard Cornwell, porque tenho todos os seus livros de histórias medievais (e mais alguns de outras eras). Gostei muito dos primeiros que li, uma trilogia sobre a época arturiana (As crônicas de Artur). O segundo trabalho dele gostei ainda mais: outra trilogia, agora sobre a guerra dos cem anos (A busca do Graal). O terceiro, Azincourt, um livro sobre aquela famosa batalha, achei brilhante.

As crônicas saxônicas são compostas pelos livros “O último reino”, “O cavaleiro da morte”, “Os senhores do norte”, “A canção da espada” e “Terra em chamas”. O sexto volume, encontrado somente em inglês e com previsão para publicação no Brasil em junho de 2012, se chama "Morte dos Reis" (Death of Kings).

A história de Uthred encanta, diverte e não é à toa que os fãs do autor, espalhados pelo mundo afora, em séria crise de abstinência, não param de cobrar sua continuação. Pois, depois de nos viciar, publicando habitualmente um livro por ano, isso do primeiro ao quarto volume, passou mais de dois anos para lançar o quinto e, depois desse, outros dois para o sexto volume da série, editado recentemente na Grã-Bretanha e Estados Unidos, mas ainda sem data para lançamento no Brasil.

A visita cruel do tempo

Não dá para dizer que o livro é diferente. É estranho, mas muito bom. Eu sei que é quando muda alguma coisa dentro da minha cabeça. Quer saber? Sei novas maneiras de escrever sobre o tempo que passa, sei que as coisas não precisam ser lineares para, na marra, levar o leitor em linha reta através da vida dos personagens. Lendo a Jennifer Egan parece simples. Não é.
Ler sobre a passagem do tempo (e aplicar em paralelo à nossa vida) é sempre coisa dolorida. A autora mostra com ternura e lucidez, através de histórias entrelaçadas, o que há entre o que queremos e o que a vida realmente nos concede.
Eu li “A visita cruel do tempo”, (A Visit From the Goon Squad) com sofreguidão, sem perceber a passagem do tempo. Me lembrou das emoções das muitas voltas ao passado - mesmo com a melhor das intenções - para acabar sofrendo as dores das perdas pelo tempo que se foi.
Do que eu mais gostei? A forma da escrita. Mas aí tem a questão da tradução, o que é um bom argumento. Não é isso. É a limpeza do texto. Direto. Amoroso. Irônico, divertido. Novo: um capítulo, todo escrito na forma de lâminas para apresentação, mostra claramente que, para a boa literatura, não há limites quanto à forma.

Senti tristeza, algum banzo, mas quem não sente, quando se é lembrado, uma dúzia de vezes, do quanto a vida é efêmera e de que a felicidade e a dor estão sempre muito perto de nós. Muitas vezes a distância entre um e outro é de apenas o abrir de uma porta ou de um mergulho no rio.

A guerra das salamandras

Um dia o capitão J. van Toch chegou numa ilha da região de Sumatra a procura de pérolas. Lá encontrou salamandras. De pronto, sua visão de homem de negócios, considerou a descoberta muito valiosa porque, além de habilidosas, rapidamente aprendiam a entender o que os humanos queriam. Também conseguiam trazer mais ostras à superfície do que qualquer pescador de pérolas da Sumatra. O que ele não sabia era que as salamandras seriam capazes de muito mais.

O romance de Karel Capek (1890-1938), “A Guerra das Salandras” (Válka s Mloky, para quem entende tcheco), começa como uma aventura de ficção. Com muito humor e ironia, foi me levando a acreditar que se tratava apenas de uma alegoria divertida. Engano meu.

O livro, escrito antes da segunda guerra, jamais deixa de lado o tom irônico mas, à medida que avança, mergulha num espiral delirante sobre inconseqüência, totalitarismo e corrida armamentista.

Gostei muito. Me divertiu, me fez dar risadas, me fez pensar. Também senti ansiedade e aflição na pele dos personagens “vítimas” das circunstâncias. Ninguém escapa, ninguém é inocente nessa bela metáfora apocalíptica.

No prefácio do livro fui informado de que Capek era contemporâneo de Kafka e que escreveu muito, de tudo, inclusive literatura infantil e ficção científica. Morreu cedo, aos 48 anos de idade.