Um livro estranho. Faz algum tempo que terminei de ler e ainda sinto dificuldade de escolher meu voto. Seria tão fácil se o título definisse tudo... “O psicopata americano” (American Psycho).Na capa não há como deixar de ler uma frase do Norman Mailer: “Como não se vê há anos, um romance profundo e com ares de Dostoievski”. Tenho certeza de que os homens já superaram em muito a capacidade do escritor russo em estabelecer os limites da crueldade humana. Ele não tinha como imaginar a vida numa cidade como Nova York do final do século 20, nem do que seriam capazes alguns sujeitos entediados que perambulam por lá.
O romance é denso o tempo todo. Ironia cruel da primeira a última página. Difícil imaginar a ferocidade do protagonista, até que me lembrei do que já li e assisti, em reportagens e documentários, sobre psicopatas da vida real.
O autor, o Bret Easton Ellis, hábil, foi me anestesiando com humor negro e banalidade brutal e delirante até me fazer ler o livro todo sem sentir dor. Mas não há como deixar de carregar, por boa parte da narrativa, aquela “bola” que se forma entre o estômago e a boca.
Ele começou me enrolando com descrições infinitas de roupas, penteados e as atitudes vazias dos personagens, ao ponto de me deixar enjoado. “Eu estava vestindo um terno de lã xadrez quadriculado com calças pregueadas da Hugo Boss, gravata de seda, também da Hugo Boss, camisa de algodão trançado mercerizado da Joseph Abboud, sapatos da Brooks Brothers. (...) balançando minha maleta de couro da Bottega Veneta”. Isso vai pelo livro todo. Qualquer e toda nova cena é precedida pela descrição minuciosa de como cada um está vestido e penteado etc. Quando as coisas começam de fato a esquentar você já está achando que qualquer negócio é melhor do que aquela chorumela de futilidades. É perturbador.
Foi filmado em 2000 com o Christian Bale no papel principal – aquele ator com a boca meio mole, o atual Batman. Como não vi filme, apenas imagino como pode ser passado em circuito comercial normal sem ter sofrido castração. Mas Hollywood é capaz de quase tudo.
Parece que o livro causou polêmica quando foi lançado em 1991. Protestos feministas e pressões contra sua publicação fizeram uma editora desistir na última hora. Eu não duvido de nada disso.
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