sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O fim da infância


O inglês Arthur C. Clarke escreveu muitos livros. O mais conhecido no Brasil é 2001, uma odisséia no espaço. 2001 é bom e histórico, afinal, virou um filme e dos bons. Esse, O fim da infância, que acabo de reler, foi um dos primeiros que ele escreveu e é um dos melhores entre os que li. Rivaliza até com Encontro com Rama, que considero sideral, quer dizer, maravilhoso. O fim da infância, primeiramente, foi escrito como um conto curto (Anjo da Guarda) e, depois de sofrer algumas intervenções promovidas pelo seu agente literário, transformou-se no primeiro capítulo do romance.

O conto original foi publicado em uma revista em 1950, o livro em 1953 (uma observação, do autor, nos lembra de que o livro precedeu em quatro anos o lançamento do primeiro satélite terrestre, o Sputnik). Logo depois, em 1956, Hollywood comprou os direitos do livro. Esse direito, à produção cinematográfica, já mudou de mãos várias vezes, mas ninguém o produziu. A leitura me fez ter alguma ideia do porque dessa “demora”. A cena inicial do filme Independence Day, em que as naves alienígenas chegam e estacionam sobre as principais cidades terráqueas, pagou direitos autorais aos detentores dos direitos cinematográficos sobre o romance. Entretanto, o resto do filme não tem nada a ver com o resto do livro.

O que há de mais interessante nesse romance, de ficção científica, é que se passa todo sobre a superfície do nosso planeta. A parte em que um dos personagens faz uma viagem espacial é acessória, pois o mais importante é o que acontece, oitenta anos depois da partida, quando retorna ao seu lar, a Terra.

O livro é assombroso. É uma viagem sem volta. Diante da cronologia dos fatos associados às datas, do lançamento do livro ao início da conquista espacial, que o romance precede, imagino como deve ter sido lê-lo na época em que foi publicado. Recomendo como um excelente “abridor de mente”. Aposto que a maioria dos leitores não continuará a ser mesma pessoa depois de terminar a leitura. O autor, no tempo em que escrevia o romance, pesquisava o universo do que chamamos de paranormal. Apesar de alguns anos depois ter se transformado em um cético, seu livro consegue nos envolver numa atmosfera carregada pela exibição da inevitável evolução e o fim das coisas, da vida e até da história do homem sobre a superfície do planeta.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Bird by Bird


Quando comentei o livro do Mario Vargas Llosa, Cartas a um jovem escritor, mencionei um outro livro, o Bird by Bird, da Anne Lamott, e disse que ele merecia, oportunamente, um comentário próprio. Aí vai.

- Então, você quer escrever um livro?

- Quero.

- O melhor a fazer é ir escrevendo logo. Supondo que você tenha alguma coisa sobre o que escrever, não é?

- Tá na minha cabeça há muito tempo.

- O que está esperando para colocar isso no papel? Se é como diz, que isso está em você há tanto tempo... Vai, senta e escreve. Ou prefere que antes eu lhe mostre como é que se transforma ideias em texto? (Puxa! Como seria bom se isso fosse possível na vida real – aparecer alguém com disposição para nos desentranhar nos caminhos da escrita)

- Eu adoraria! Já fiz várias tentativas, sem resultado. Essa coisa continua assombrando de dentro da minha cabeça. Não sai de lá nem consigo esquecê-la.

- Olha, parece complicado, mas na verdade é simples, se você tomar algumas medidas que favoreçam o fluxo das ideias. Esse é um ponto. Disse o mestre.

- Tá, até aí eu fui. Ideias não me faltam. Mas me enrolo na organização delas. Começo a escrever e, em pouco tempo, fico enredado pelas várias possibilidades, os muitos caminhos para a narrativa seguir. Empaco. Começo a acreditar que escrever é mais um trabalho de organização do que de criação. Acho que a diferença entre o escritor e os simples mortais está na capacidade de um transformar impulsos cerebrais em texto inteligível, criativo e novo, não importa o assunto, enquanto aos outros, como eu, até agora, cabe ficar nos mata-burros das primeiras linhas. É como se um grande pensamento branco tomasse conta do cérebro. E lá fica a ideia, acenando, como quem diz: vai, me escreve, qual o problema? Afinal, sou toda sua e estou bem aqui, na sua cabeça.

- Chegou perto. Vamos olhar com mais cuidado esse ponto. Deixa a organização do seu “romance” para mais adiante. O primeiro passo é tirar o máximo da tal idéia, algo que possa se transformar em texto, como você mesmo disse, inteligível, criativo, essas coisas. Qualquer rabisco vale. Frase solta vale. Sem organização mesmo...

- E como isso é feito?

- Ora, escrevendo.

- Mas...

- Espere. Sei que vai dizer que empaca etc. Aqui, quando digo que é escrevendo que se começa a tirar a ideia da cabeça, não falo da produção do texto final, mas apenas daquela pressão que, novamente usando as suas palavras, lhe assombra a cabeça há tempos.

- Mas, ao conseguir escrever isso, não estou trabalhando com a minha ideia e produzindo o livro?

- Sim e não.

Fiquemos imaginando que a conversa continua. Muitas páginas serão necessárias para narrar a epopeia do mestre, disposto à tarefa de desvendar, ao neófito, os mistérios que se ocultam por dentro da mente daqueles que conseguem produzir escritos, inteligíveis, criativos e novos, não importando o tema.

Este diálogo, infelizmente, é um bocado improvável, mas pouparia o tempo de muito candidato a escritor. É improvável porque dificilmente se encontrará o sábio interlocutor, com a disposição de ensinar o caminho entre as pedras (e espinhos) da produção literária.

Mas, para isso também há remédio. Procurando a solução para o meu problema - sim, leitor incauto dessas linhas, o neófito sou eu -, encontrei mapas que mostram alguns desses caminhos entre as pedras. Descobri, seguindo aquelas pistas, que há muitos deles por aí: escritos que falam do escrever.

Há os livros técnicos, os eruditos, outros até são engraçados e alguns, os melhores, conseguem misturar um pouco de tudo para dar ao leitor, interessado em se passar para o lado do escritor, boas informações sobre o prazeroso, mas extenuante, ofício de escrever.

A triste verdade: não há quem ensine a escrever! Tudo vai depender apenas daquilo que você já sabe – desde os tempos da escola – e/ou apreendeu dos muitos livros que leu. Ah, não leu muitos livros? Vai subir uma ladeira bem mais íngreme. Para escrever com qualidade - que não significa apenas o domínio das técnicas, mas a facilidade de escolher a sintaxe, o estilo com que determinará a fluência de suas ideias - a leitura prévia de muitos autores lhe proporcionaria um caminho mais plano. A cultura literária faz milagres. Existem autores, por exemplo, que produzem texto como se estivessem deslizando ladeira abaixo.

O primeiro ponto abordado pelo “mestre”, no diálogo improvável, diz sobre a desordem das primeiras anotações. O segundo ponto, que não deixamos sequer ser mencionado, diria sobre o fluxo das palavras do cérebro para o papel e alguns métodos para que isso se mantenha pelo tempo necessário à consecução da missão de escrever o conto, a crônica, o romance, a monografia ou o relatório ao chefe do departamento.

O mestre disponível é coisa rara, uma espécie praticamente extinta, mas, nas minhas buscas, encontrei um livrinho, uma verdadeira preciosidade, um manual de instruções na arte da produção literária. Quem gosta da ideia de passar a escrever deve comprá-lo. Garanto que terá muitas horas de divertimento e aprendizado com a Sra. Anne Lamott, autora do tal Bird by Bird, ou Palavra por palavra, em português. (Não gostei desse título em português, mas temo que o leitor não vá se dar conta da sutileza que envolve o título, no original em inglês. Eu fui obrigado a “saber” disso porque, quando comprei o livro, só havia a edição americana. Não sei como foi que os pássaros se transformaram em palavras na edição brasileira. Mas não tenho a menor dúvida de que isso deve ter sido objeto de muita discussão entre o tradutor e os editores)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Gomorra


Roberto Saviano é um jornalista italiano que um dia resolveu morrer. Claro que ele não queria morrer verdadeiramente, do jeito que se imagina como seria com um tiro, uma facada ou estrangulamento, essas coisas horríveis e que devem doer um bocado. Ele resolveu que não valia a vida de jornalista se não descobrisse como funciona a indústria da morte, da corrupção infame e da miséria que assola boa parte da Itália: a máfia, mais precisamente a Camorra, de Nápoles.

Largou tudo e se infiltrou naquele mundo. Não precisou ir muito fundo - se tivesse conseguido, não teria sobrevivido para contar a história -, mas o tanto que ele se aprofundou foi o suficiente para escrever o livro Gomorra e merecer uma sentença de morte.

Estarrecido é pouco para definir como fiquei enquanto desfolhava o livro, no princípio com incredulidade e, à medida em que as tramóias macabras vão se sucedendo, com revolta e repugnância. Como isso ainda pode acontecer em pleno século 21? Me perguntei muitas vezes. Que país é esse que não consegue se livrar desse verdadeiro câncer, que é a máfia? Ora, não estamos muito longe daquilo, não é, mesmo aqui no Brasil. Países muito mais desenvolvidos do que nós e a Itália, como os Estados Unidos e Alemanha, têm problemas sérios com organizações derivadas ou associadas diretamente à máfia italiana.

Tráfico de drogas, de armas, chantagem, extorsão, jogatina e loterias, prostituição, contrabando, corrupção de funcionários públicos e armações para amealhar contratos lesivos etc, são muito mais comuns do que percebemos sentados em nossos sofás. A podridão se alastra nas áreas de serviços como a coleta de lixo e obras públicas. Outro exemplo de área dominada pelos escroques é a da movimentação de cargas em portos, isso no mundo todo. A Itália não seria uma exceção, nenhum país é. É ingênuo pensar que sim, que existem lugares diferentes, onde os sindicatos e organizações que dominam essas áreas de serviços e categorias profissionais o fazem por absoluto altruísmo e interesse na grandeza e desenvolvimento do seu país e que não são controlados ou simplesmente pertencem à máfia.

Essas coisas todas e a omissão das autoridades e da sociedade em geral, são expostas didaticamente, cruamente e com clareza pelo texto jornalístico do Saviano. A crueldade insana, sangrenta e sem sentido, manteve um “bolo” na minha garganta durante boa parte da leitura. Homens que praticam atos de barbárie contra mulheres e crianças inocentes, culpados apenas por serem parentes de algum desafeto ou de estarem no lugar errado na hora errada, me fizeram pensar, afinal, que ser humano não significa ser grande coisa.

Gomorra é leitura que fascina, assusta e desperta pensamentos sombrios.

Roberto Saviano ainda não morreu.

sábado, 1 de setembro de 2012

A felicidade é fácil


Acabei de ler o livro do jornalista Edney Silvestre. Não sabia nada dele como escritor, muito menos que esse não era seu primeiro livro. Soube um pouco quando me dei ao trabalho de ler umas e outras boas resenhas sobre o A felicidade é fácil.

Gosto de ler. Leio de tudo. Gosto muito de histórias policiais.

Eu confesso: tive que vencer algum preconceito. Jornalista global, resenhas em jornais escritas por colegas... Caramba! Tenho gasto um bom dinheiro para ler muitos romances policiais dos quais bastou uma resenha “interessante”. E isso não me livrou de ler coisas deficientes. Vou prestigiar um brasileiro, pensei. Não vou conseguir me arrepender disso mais do que já me arrependi ao ter me arriscado com sujeitos com nomes estrangeiros. Comprei o livro.

De início estranhei. Parecia que estava lendo uma história já conhecida, que já havia sido publicada nos jornais, até me dar conta de que o Edney estava usando, com  habilidade, a minha memória. Ele conta um caso de sequestro perpetrado no Brasil por bandidos estrangeiros. Lembram? Pois é, eu ia me lembrando e isso me fazendo acreditar que já sabia do caso. Mas o livro não é uma reportagem, é romance, e me caiu a ficha. O enredo não é o mesmo que narrou, em passado recente, a crônica policial brasileira, mas tem tudo com o que os jornais publicaram sobre os famosos casos do Abílio Diniz e do Olivetto. Só que o autor nos coloca do outro lado da linha, do lado dos que sabiam o que realmente havia por trás daquilo tudo. Estranhamente, a possibilidade de que complôs como aqueles pudessem ter acontecido da forma como ele descreve, não me espantou.

Edney Silvestre navega por onde conhece. Pega tudo: polícia, política, economia, corrupção e outras coisas que estão por aí, na nossa cara, o tempo todo. Mistura, sacode e serve de volta numa história simples, bem montada e bem escrita.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tablóide Americano


Eu já mencionei esse livro, Tablóide americano (American tabloid), no comentário “6 mil em espécie” que publiquei sobre a trilogia de romances policiais, do James Ellroy onde a narrativa se passa nos Estados Unidos da era Kennedy e logo após. Naquele texto tomei por base o que havia lido nos dois últimos livros da série, os 6 mil em espécie (The cold six thousand) e Sangue errante (Blood’s a rover). Não tinha como comentar o primeiro, o tal Tablóide, porque esteve esgotado. Semana passada, finalmente, terminei a sua leitura.

Tablóide americano, não correspondeu à minha expectativa. Por ser o primeiro, pensei o pior sobre o livro. Normalmente, o autor aprimora o trabalho na medida em que o desenvolve. Engano meu. Não dá para eleger qualquer um dos três livros como o melhor. A pegada é a mesma.

Quando comecei a ler a trilogia, a partir do livro dois, o John Kennedy já era e a ação é nos tempos de depois do seu assassinato. Em Tablóide americano a coisa começa antes da sua eleição para presidente e discorre sobre as maquinações para que isso aconteça, incluindo a campanha contra o Nixon, as tramóias com a máfia - do Sam Giancana e do Carlos Marcelo -, com o Jimmy Hoffa, com o FBI - do Edgar Hoover -, com o Fidel Castro – aquele de Cuba -, com o irmãozinho Robert Kennedy e o até com o doido drogado do Howard Hughes. Descreve o planejamento e as consequências da desastrada invasão da Baia dos Porcos e outras coisas mais do reinado do Kennedy. Todo mundo alimentou ilusões a respeito do priápico presidente. Todo mundo achava que ele seria legal. Todo mundo achava que a máfia se daria bem. Hoffa se daria bem. Hughes e até Fidel também. Ninguém se deu bem.

O livro é ótimo, mas aviso que ele segue o mesmo estilo de pancada dos outros dois, ou seja: golpe abaixo da linha da cintura é o que conta. Prostituição, chantagem, tráfico de heroína e de influência, assassinatos a tiros e a machadadas, roubo, escutas ilegais, tudo faze parte do cardápio oferecido por James Ellroy na trilogia fantástica, Submundo USA, sobre o crime organizado e a politicagem nos Estados Unidos dos anos 50 e 60. Há coisas escritas das quais até Deus duvida, mas nada tão absurdo ao ponto de se ter a certeza de que não aconteceu. Entre as várias delícias, os relatos sobre a produção da revista de fofocas Hush Hush: impagável.

“O maior escritor policial de nossa época, talvez de todos os tempos.” - Newsweek

“Estilhaços narrativos que, unidos com uma coerência exemplar, formam uma história cativante desde os primeiros capítulos. É literatura policial, e das boas.” - Folha de S. Paulo

terça-feira, 14 de agosto de 2012

1933 foi um ano ruim


John Fante foi um homem preocupado com a verdade. Sempre que leio algum dos seus livros me passa pela cabeça que ele faz parecer tão simples escrever direto do coração para o papel. Quem já arriscou seus rabiscos sabe bem do que estou falando.

Nesse livro, pequeno, 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year), ele não deixa nada para depois. Coloca lá as coisas que tocam fundo o coração, direto, sem voltas. Dominic quer o mundo. Ele tem 17 anos e está certo de que não tem tempo a perder. Meu coração pulava enquanto eu me lembrava de que já estive por lá, pelos 17 anos de idade, com meus sonhos e delírios, caros, urgentes.

Depois que terminei de ler o texto de John Fante, morto lá em 1983, doeu lembrar que ainda estou aqui, que nada aconteceu. Que o mundo não acabou – todo mundo um dia teve a certeza de que isso iria acontecer quando viu que a vida não estava nem aí para sonhadores com 17 anos de idade.

Já li dele Pergunte ao Pó (Ask the dust), Espere a primavera, Bandini (Wait until spring, Bandini) e esse, 1933 foi um ano ruim, em todos está presente essa urgência em realizar e a ansiedade jovial do protagonista, mais ou menos um alter ego do autor.

Charles Bukowski, uma espécie de curador informal da obra de John Fante, disse: “finalmente aqui está um homem que não tem medo da emoção”.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quelés




O livro de Roberto Caminha foi uma grande surpresa. Logo nas primeiras páginas eu pensava: é uma preciosidade! É o seu primeiro livro e é ótimo. Um tipo de coisa de que eu gosto: um épico. Mais que isso, um épico amazônico. Mesmo já tendo vivido por lá e com idade suficiente para não duvidar de nada nesse mundo de Deus, não imaginava que houvesse tal história para ser contada e não me lembro de nada parecido entre os livros de aventuras que já li. (Alguém, mais esperto, deverá suspeitar, com razão, de que já li muitos)

Como os bons escritores do gênero – romance biográfico sobre aventureiros/desbravadores -, Roberto conseguiu recriar personagens convincentes, heróicos, íntegros e honestos na sua visão da vida e que, a medida em que o texto se desenvolve, transmitem empatia de tal forma que logo me senti um membro do bando, quer dizer, da família de conquistadores. Mas nossos heróis são daquele tipo que vão além do que a lei e a ordem regulam quando precisam defender os fracos e oprimidos, a si mesmos ou aos seus interesses territoriais, numa Amazônia em pleno ciclo da borracha, com bandidagem pululante. Aí, são de uma crueldade sem par, sem a menor preocupação com o “politicamente correto”, essa praga que nos assola. Em alguns momentos da narrativa eu e meu estômago tivemos que ser fortes, principalmente naquelas passagens onde entre os protagonistas apareciam os jacarés.

Mas afinal, o que é um quelé? Entendi que eram todos os que faziam parte da turma dos bons. Na verdade havia um personagem com esse apelido que acabou estendido a todos os membros do bando. Curioso, pesquisei no Google e descobri uma definição interessante: quelé vem do irlandês Keli, que significa pessoa viva e agressiva. Provavelmente o Quelé do livro não tem nada com os irlandeses, mas seria bem apropriado.

A leitura de Quelés me lembrou dos tempos em que se contavam histórias. É um livro de aventura bom de ler, com narrativa simples e direta, sem enfeites, onde Roberto Caminha, como um grande contador de histórias, narra a saga de seus antepassados.

sábado, 21 de julho de 2012

O livro das coisas perdidas


Era uma vez... É assim que começa a história do menino David, o herói de O livro das coisas perdidas, do escritor irlandês John Connolly.

Encanto desde a primeira linha, o autor conduz nosso herói pelas lendas e fábulas que um dia povoaram o imaginário das crianças, eu entre elas. Chapeuzinho Vermelho e o lobo mau, Branca de Neve e os sete anões, João e Maria, lobisomens e a Bela Adormecida, são algumas das figuras que o menino visita em sua saga em busca de uma verdade.

A narrativa é sombria, a melancolia a companheira de toda hora. As manifestações de crueldade e o seu resultado – uma constante, como acontecia nas fábulas originais –, colorem de vermelho o cenário. O caminho que David precisa percorrer, atrás da saída da situação em que se vê metido, é tortuoso e os perigos são mortais. Será que o bem triunfará sobre o mal? A dúvida nos perseguiu até as últimas páginas.

Leitura difícil de largar, hipnótica. Enquanto viajava pelo livro, lembrei da tia querida e do meu pai, que contavam histórias, muitas vezes terríveis, para os pequenos dormirem. Lembrei de fábulas e de que eu era criança. Revi o momento em que foi plantada a semente que me transformaria em um leitor.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

As Crônicas Marcianas


Fecho os olhos. As imagens vão se formando, vívidas. O chão, as dunas de areia, as colinas e as grandes montanhas distantes, tudo vermelho. Ferrugem. Há uma névoa rubra eterna na linha do horizonte. Em algumas épocas o vermelho se eleva bem acima do horizonte. É a estação das grandes tempestades. Ventos colossais fazem todos se esconderem nos subterrâneos para lá ficar por vários meses, até a natureza se acalmar na superfície.

Sobre a minha cabeça o céu é negro e cheio de estrelas. São tantas estrelas... como nenhum habitante da Terra jamais viu ou verá enquanto estiver mirando de lá o céu noturno. Aqui, onde o céu é sempre negro, a diferença entre o dia e a noite é o sol, que nasce bem menor do que na Terra. Brilhando como uma grande estrela junto com todas as outras contra o céu escuro. É noite quando o Sol desaparece, só que as estrelas continuam ali, agora tomando conta do espaço que cobre tudo. O seu brilho é tão intenso que é claro como o dia, dia marciano.

Nunca subestime o poder da leitura. Eu, que há muito estivera em Marte através d’As Crônicas Marcianas, pouco lembrava daquele planeta e este pouco ainda estava oculto pela névoa do tempo nas dobras do meu cérebro. Enquanto relia o livro do Ray Bradbury fui surpreendido por visões daquele lugar, por onde nunca andei.

Reler o livro me levou de volta a Marte e uma imensa nostalgia tomou conta do meu coração. Não são estranhos esses sentimentos? Nunca estive lá e, no entanto, é como se eu tivesse vindo de lá.

Tenho a mania de não ler introduções, prefácios ou apresentações, que geralmente estão no início dos livros, mesmo que sejam escritas pelo autor. Deixo isso para o final, se gostar do que li. Nesse caso meu mau hábito foi providencial. A leitura da apresentação feita pelo Bradbury teria certamente “estragado” tudo. Ele cita Aldous Huxley em seu comentário sobre As Crônicas Marcianas: “Você é um poeta. Escreveu um livro de poesia sobre Marte. É mais do que ficção, são mais do que meras palavras, são palavras mágicas. Você transformou Marte em um lugar real e nós todos vamos viajar para lá e não vamos voltar, tudo por sua culpa. Você chegou lá primeiro, foi o primeiro marciano. Obrigado por este livro.”

Obrigado por este livro, Ray Bradbury, descanse em paz. Nos vemos em Marte.

sábado, 30 de junho de 2012

Carne trêmula


Gosto de ler contos e romances policiais, as “histórias de detetive”. Para mim é diversão garantida. Tem muita gente boa, inclusive no Brasil, produzindo esse tipo de literatura, que é uma coisa bem antiga. Desde Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle – os pioneiros mais conhecidos -, entre 1840 e 1880, que essas histórias vem alegrando a existência dos que gostam do gênero, como eu.

Apesar de não ser uma escritora novata, pois o seu primeiro romance é de 1964, Ruth Rendell só chegou ao meu conhecimento recentemente, coisa de uns cinco anos. Eu sabia quem ela era, sua reputação etc, mas não havia lido nenhum de seus livros. Comecei minha adoração por ela com o Carne trêmula (Live Flesh). Ter me iniciado na Senhora Rendell por esse livro foi uma combinação de acasos felizes: o conhecido filme do Almodóvar estar na minha memória, o encontro com o livro em uma livraria e ter acabado de ler um outro livro dela, o Uma agulha para o diabo (The fever tree and other stories). Mas não acabei de dizer que me iniciara na Ruth Rendell pelo Carne trêmula e revelo que já havia lido um outro livro dela? Calma! Às vezes precisaremos de mais de um livro para nos transformarmos num admirador. E esse pequeno livro, Uma agulha para o diabo, nem é um romance, mas um livro de contos.

Ruth Rendell está aí há muito tempo e já escreveu mais de cinquenta livros. Gostei de todos os que li, mas Carne trêmula é o mais forte. Ler esse romance policial é uma pancada. Não foi à toa que o Almodóvar o escolheu para fazer o filme. Logo me vi enfiado dentro da cabeça de um psicopata. Assim, a narrativa segue por quase trezentas páginas de agonia e crescente desespero vividos pelo personagem em sua rota de colisão com o mundo. A Sra. Rendell, me fez seguir até o fim, na carona de um maluco, como em um carro desgovernado, em busca do alívio à sua compulsão, o que só será possível no fundo do abismo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

6 mil em espécie


“Foi mandado a Dallas para matar um chefão crioulo chamado Wendell Durfee. Não tinha certeza se conseguiria fazer isso.”

Este aí é o primeiro parágrafo do livro 6 mil em espécie (The cold six thousand), o segundo livro da trilogia que o escritor James Ellroy encerrou com Sangue errante (Blood’s a rover). O primeiro da série é Tablóide americano (American tabloide), que ainda não li. Andou sumido das livrarias. Tive que comprar diretamente da editora. Já chegou, está na fila de espera. O número da senha dele é alto. Vai demorar um pouco até ser lido.

Comecei o comentário com uma amostra do texto do James Ellroy, onde são raros os parágrafos maiores do que este e esses tem pouco além de uma linha a mais. Telegráfico, seco, duro nas palavras e com os personagens, para Ellroy ninguém é bom o suficiente para merecer elogios ou mau que mereça danação inapelável. Bem antes de algum julgamento, são descartados pelo enredo ou eliminados, no mau sentido, por outro personagem. Homens ou mulheres, todos são mais ou menos sujos, fracos e maus. Os que parecem bons, o são até a primeira dobra de esquina. Depois, bem, recomendo a leitura dos livros para descobrir.

O que leva alguém a achar interessante uma coisa dessas: curtir personagens de caráter fraco? Ora, quem deixa de ler o que nossos jornais publicam exaustivamente sobre o que se passa nos corredores do poder na nossa querida República das Bananas? Então, imaginem um autor sem preguiça de pesquisar, trabalhando duro sobre esse tipo de material, escrevendo um conto de ficção sobre a era Kennedy. Melhor, sobre o que acontecia em baixo dos panos no fim daquela era. O resultado me levou ao nocaute!

O primeiro livro, Tablóide americano, se passa no tempo imediatamente anterior ao assassinato do John Kennedy e vai até aí. O segundo, 6 mil em espécie, do qual citei a frase, começa no dia em que o presidente é eliminado (qualquer um pode ter a sua vez) e vai até as vésperas da eliminação do irmão, Robert (mais um). O terceiro livro, Sangue errante, é sobre o complô para isso e mais a liquidação do Martin Luther King. Há heroísmo, coragem e cara de pau. Nenhum santo. Nem o King escapa.

Os livros são narrativas em estilo policial sobre conluios, armações descabeladas engendradas pela Cia, junto com o FBI, oficiais do exército, policiais bandidos, corruptos das agências antidrogas, trambiqueiros da máfia de Nova York e de Las Vegas, renegados cubanos da Cia e comunistas cubanos corruptos, também da Cia. Ellroy não esquece de mulheres bonitas se corrompendo nem de corrompidas tentando parecer boazinhas ou bonitas. Todo mundo quer vida fácil. Todo mundo quer poder. Todo mundo quer prazer rápido, inconsequente. Tudo imediato, junto e misturado.

No fim me dei conta de que aquilo tudo pode ter acontecido daquele forma. Por que não? Afinal, engenhosidade e audácia de bandido não tem limites. Estamos cansados de ver nos jornais e na tv. Esse é o ponto: comecei a ler um romance. De repente estava lendo um documento. Acabei convencido de que somos apenas os últimos a saber.

O nome do homem é James Ellroy. Recomendo a leitura de qualquer um de seus livros. Foi ele quem escreveu Los Angeles, Cidade Proibida (L. A. Confidential) - que deu origem a um bom filme com o mesmo título (de 1997) com Danny DeVito, Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce e Kim Basinger – e Dália Negra (The Black Dahlia), que também foi filmado. Esse último parece que é uma tentativa de purgar um trauma de infância, o assassinato nunca esclarecido de sua mãe.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os belos e malditos


Ler o que Scott Fitzgerald (1896-1940) escreveu é obrigatório. Mas a obrigatoriedade de ler suas obras é uma das coisas mais prazerosas que se pode ter com a literatura. Para quem não sabe, é bom avisar que se trata de ficção. Apesar da fama, como a maioria dos grandes escritores, fez de sua obra algo muito fácil de ser digerido mesmo por aqueles com pouca intimidade com a leitura.

O aviso, de que se trata de ficção, é importante porque, à medida que se vai lendo o maravilhoso Os belos e malditos (The Beautiful and Damned), escrito em 1922, temos a impressão de que aquilo tudo se passou verdadeiramente com o narrador. A obra tem caráter autobiográfico, claro, mas não é literal.

Neste livro Fitzgerald mostra o mundo dos ricos de Nova York na "era do jazz", dos verões da década de 1920 em Long Island e das relações vazias que mantém aquela gente reunida, para fugir da uma realidade que, certamente, não os tornaria mais felizes. Com olhar afiado e irônico escreve a crônica da espiral descendente do casal de esbanjadores Anthony e Gloria Patch que, mesmo depois de alguns passos além da beira do precipício, mantém as aparências e os hábitos a qualquer custo.

Gosto dos personagens do Fritzgerald e de sua “auto-suficiência” arrogante. Acho que ele conseguiu criá-los tão bem por causa de sua própria condição de egocêntrico. Em suas palavras, “eu só vim a saber, com quinze anos, que existiam outras pessoas no mundo além de mim, e isso me custou bastante”.

Fitzgerald escreveu apenas cinco romances. O mais famoso deles, O grande Gatsby (The great Gatsby), de 1925, já foi filmado em quatro versões, a primeira em 1926; a segunda em 1949, com o Allan Lad; a terceira, de 1974, é a mais conhecida com o Robert Redford e a Mia Farrow. Também tem uma quarta versão para a televisão, de 2000, e sabe-se que estão finalizando a produção de mais uma com o Leonardo di Caprio, sempre ele.

Escritor de sucesso precoce, Fitzgerald conseguiu fama e grana muito jovem, logo no seu primeiro livro, o Este lado do paraíso (This Side of Paradise). A partir daí, levou a vida como uma grande festa, com muita birita e dissipação, até morrer com apenas 44 anos, deixando inacabado o quinto romance, O último magnata (The Love of the Last Tycoon).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Zorro


Quem não conhece ou ouviu falar ou ainda não leu um livro da Isabel Allende? Eu ouvi falar, sei algumas coisas dela, mas nunca havia lido um livro seu. Apesar do conhecido sucesso mundial da escritora chilena, dos muitos elogios sobre sua obra, nada me fez ter vontade de ler algum dos seus livros até o Zorro (El Zorro).

Mas, espera aí? Esse livro foi escrito pela Isabel Allende? Não foi um mexicano, um americano quem escreveu isso?, alguém vai perguntar. E foi mesmo, um americano do norte, o canadense Johnston McCulley, quem criou o personagem em 1919, no seu conto A maldição de Capistrano (The curse of Capistrano), publicado em cinco partes numa revista pulp. Depois foi relançado como livro com o título A marca do Zorro. Quando virou seriado da Disney (que eu adorava assistir) entre 1957 e 1959, com o ator Guy Williams no papel do Zorro, acabou se transformando num sucesso mundial. Hoje, desconfio de que se alguém rabiscar para um garoto a famosa marca dos três traços cruzados pode receber de volta o olhar de quem não sabe do que se trata. Se bem que recentemente foi produzida uma sequência de dois filmes (bem razoáveis), com os dois Antônios, o Hopkins e o Banderas, se revezando no papel do herói.

Bom, eu pensava que a história, uma legítima capa-e-espada, que se passava na Califórnia, no final do domínio espanhol sobre o México, havia se esgotado em sí. Afinal, o romance tem começo, meio e fim, quando Don Diego de La Vega, depois de peripécias eletrizantes (recomendo a leitura do clássico), revela sua identidade no último capítulo e todos vivem felizes para sempre.

Meu engano. É aí que começa - na verdade nem chega perto daí - a história que Isabel Allende engendrou para me encantar. Ela não reescreveu a lenda, mas inventou, aumentou o que já era bom. Deu aos fãs do herói mais coisas com o que se deleitar. Eu gostei muito.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A última façanha do major Pettigrew


Preciso urgentemente começar a fazer anotações sobre o que me leva a querer um livro. Nem sempre me lembro exatamente do que me fez comprar um. A única evidência que fica é a de sempre: as resenhas que leio o tempo todo. Mas a pista se perde nesse ponto. Não sou capaz, na maioria das vezes, de seguir farejando para descobrir o que, naquilo que li sobre o livro, me fez desejar a sua leitura. Felizmente, é raro me dar mal. A obra de Helen Simonson, A última façanha do major Pettigrew, é um desses casos.

Se o objetivo desse escrito fosse um resumo, daria para dizer que é sobre um livro de amor e ponto. Pior, relendo algumas resenhas me dou conta de que aquilo não seria do meu interesse. Parecem falar de um romance água com açúcar. Mas isso seria muito pouco e uma injustiça para a autora de um texto absolutamente delicioso. Nesses tempos, quando tanta magia, anjos caídos, vampiros e lobisomens em aventuras descabeladas pululam nas páginas da literatura mundial, incluindo aí escritos de bons e jovens autores brasileiros do gênero, encontrar um livro que fale de pessoas em carne e osso, sem nenhum recurso pirotécnico para atingir seus desígnios, foi uma doce surpresa.

O major, do título do livro, é um militar inglês aposentado, obviamente metódico, que mora numa pequena comunidade não muito distante de Londres, o que não nos surpreende, já que nada pode ser muito distante de nada naquele país tão pequeno se comparado ao nosso Brasil, não é verdade? Entretanto, desde que sua esposa se fora, desta vida, é claro, nosso herói lá vive há seis anos solitariamente. Para aumentar ainda mais seu isolamento, e acrescentar um problema à sua existência, o único irmão também morre. Com isso as suas preocupações passam a ser duas, manter o ritual do seu chá das cinco e tentar reunir ao seu valioso rifle de caça o seu par gêmeo que o pai havia deixado aos cuidados do irmão. A cunhada discorda, com veemência, de olho no valor da antiguidade.

A solidão logo lhe prega uma peça ao fazer com que se interesse pela dona da pequena mercearia do vilarejo, uma viúva paquistanesa culta e bonita. A partir disso os problemas, que antes eram poucos, se multiplicam velozmente, com direito a reação dos filho (de um e de outro), de parte da sociedade local e da família da namorada.

Quando me dei conta estava lutando ao lado do major Ernest Pettigrew, página a página, naquele campo de batalha pantanoso e minado dos preconceitos, dos mal entendidos e dos desencontros no amor.

Acho que decidi pela compra desse livro porque estava preocupado em trazer para casa coisa diferente do que estava lendo na ocasião. Algo por que minha linda companheira também pudesse se interessar. Devia estar cansado das muitas pauladas em Westeros, o lugar das batalhas e intrigas da série de livros do George Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo, das atrocidades relatadas em alguns livros sobre a máfia, sobre a revolução americana e, de quebra, um ou dois criminais com barbaridades envolvendo psicopatas. Também tinha acabado de ler dois da trilogia do James Ellroy sobre as traquinagens da máfia americana, com rebeldes cubanos desalmados e os bandidos da CIA e do FBI, os livros 6 mil em espécie e Sangue errante . Ufa!

A correria do major Pettigrew perseguindo a felicidade foi um bálsamo.

sábado, 28 de abril de 2012

Máfia: padrinhos, pizzarias e falsos padres


Não sei o por que do meu gosto pelo assunto máfia. Aquela dos italianos malvados, geralmente de Nova York. Mas penso se boa parte dessa minha “predileção” não se deve a um seriado americano antigo, o “Cidade Nua” (Naked City), produzido para a televisão entre os anos de 1958 a 1963. Chegou aqui em 64 e passou em algumas cidades, não muitas. Bem, naqueles tempos havia poucas com canal de televisão. Eu, garoto em Porto Alegre, tive a sorte de contar com a TV Gaúcha, como uma das que transmitiu o programa.

De lá para cá fui vendo tudo o que aparecia, não era muita coisa, até aparecer outro marco na minha queda pelas histórias de mafiosos: o livro do Gay Talese, Honrados Mafiosos (Honor Thy Father). Talese, no seu estilo de jornalismo literário, ou Novo Jornalismo, como insistem, conta a história do Joe Bonano e sua família (mulher e filhos). Joe “Bananas” era o chefe da família Bonano (que ainda leva o seu nome e é uma das grandes de Nova York), e consta que o livro foi uma biografia autorizada de um chefão. Depois veio o primeiro Poderoso Chefão.

Toda essa introdução só para ficar claro o meu “amor” pela máfia. Acho que minha personalidade tímida e a flagrante incapacidade para enfrentamentos, digamos, mais rudes, me fez voltar a atenção para personagens com modus operandi tão diferente do meu.

Eu já deixei para trás a fase dos romances de mafiosos. Agora procuro o que jornalistas, juristas ou policiais, que viram o bicho de perto e sobreviveram, escrevem. Minha lista de livros para comprar sobre o assunto é razoável. Aí, nessa perene busca pela bibliografia mafiosa – já li muitos -, acabei encontrando resenhas sobre um livro escrito por uma mulher. Nelas, além das boas recomendações sobre o trabalho de Petra Reski, havia comentários sobre uma visão diferente do problema. Afinal era uma mulher escrevendo sobre um tema, até então, masculino. Em meados de 2011 o livro foi pra fila (longa) da minha lista de compras. Claro que nessa lista não entram somente livros sobre a máfia e os mafiosos, tem de todo tipo. Em outubro de 2011 o livro chegou nas minhas mãos, finalmente. Não que eu estivesse particularmente ansioso por esse, fico assim pelos livros de qualquer encomenda, mas é que aqui o assunto é ele, aliás, o que a Petra escreveu. Melhor ainda, como ela escreveu sobre a máfia.

Minha filha diz que eu gosto de livros para meninos, no que tem razão, na maior parte das vezes. Nesse caso, não. Será que o assunto máfia é coisa para meninos? Provavelmente, a não ser que você seja mulher na Itália, especialmente se for uma na Sicília, na Calábria ou na Campânia. Lá, máfia interessa a qualquer um e as mulheres sofrem pelos seus homens.

Uma alemã escrevendo sobre a máfia italiana pode produzir um livro para meninos? Poderia, mas ela não fez isso. É uma escrita que foi fundo no meu coração enquanto descrevia a relação das mulheres com os costumes do lugar onde vivem, sem escolha.

A partir de uma chacina ocorrida numa pizzaria na Alemanha, a jornalista seguiu a trilha dos suspeitos e acabou na Sicília. Em Palermo pegou uma fotógrafa nativa, filha de uma ativista local e saíram pela ilha atrás de pessoas que tivessem alguma coisa para falar. Não encontraram muita gente corajosa. Elas, sim, tiveram que carregar uma dose imensa de disposição e coragem para realizar o trabalho de campo.

O resultado é um livro para meninos e meninas curiosos. Que se importam em saber como é possível que pessoas como nós - que vivem em regiões bem parecidas com a maioria das regiões do nosso Brasil - nascem, vivem e morrem sob o governo de uma instituição centenária e cruel. Isso acontece no coração da Europa.

Aqueles italianos da máfia de Nova York eram muito bonzinhos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Suítes Imperiais

Já havia lido um outro livro dele, do Bret Easton Ellis, o Psicopata Americano. Gostei. Forte, amalucado, uma escrita particular. Um encanto e um soco no estômago. Já comentei. Precisava ler mais. Aí, comprei Suítes Imperiais (Imperial Bedrooms), para descobrir que o livro é a continuação de outro, escrito vinte e cinco anos atrás, o Abaixo de Zero (Less than Zero) que ainda não conheço e agora quero ler. Pombas, to lendo o cara de trás prá frente! Mas, não importa. O que li até agora valeu à pena, mesmo fora de ordem.

O que notei nesse é que o autor me fez correr atrás dos personagens. Até quase a metade do livro vai aparecendo gente por todo lado e ele nem se importa em fazer as apresentações ou se você está agarrado ao fio da meada. Chegamos a um ponto onde eu não estava mais entendendo quem era o que. E ele nem aí, mandando bala. E eu indo pra frente e pra trás no texto, tentando reencontrar as migalhas de pão que me ajudassem a percorrer a trilha confusa daquela floresta de personagens na Los Angeles do Clay, o protagonista e o único que o autor permitiu que ficasse sempre à minha vista.

Repentinamente, sei de tudo e de quem é quem na trama. Bem engenhoso, o Bret Easton Ellis. Aí, é quando as coisas mudam e quem começa a perder o controle da situação é o Clay. Eu já estava me lixando para ele.

Ótimo escritor. Bom livro. Bom para sacudir os miolos. Livro recente, de 2010. Questões bem atuais, transgressões em série, coisas desses tempos de hoje: sexo, auto-indulgência, egoísmo e emoções abaixo de zero.

Respirava fundo cada vez que pegava no livro para saber o que aconteceria com o Clay e a sua turma.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cartas a um jovem escritor

Um dia descobri que tinha que começar a escrever. Não lembro quando foi que isso aconteceu, mas lembro que aconteceu assim mesmo: “preciso começar a escrever”. Idéias não me faltam, tenho até demais. A primeira delas me apareceu ainda na adolescência, pelos meus 14 anos de idade, mas nunca tentei colocar a coisa no papel. Outras vieram e se foram até que, enfim, me apareceu a urgência, a necessidade de escrever. Comecei logo por um romance, um épico. Daqueles para vários volumes. Eu contaria uma história - que se quisesse - não teria fim. Foi esse o destino que dei ao romance: um fim antes de nascer. Afinal, que leitor se interessaria por uma coisa que não tem fim.

Eu tinha uma vaga idéia de por onde começar, mas já estava com sérios problemas para tocar a obra e finalizar a empreitada. Parei. Não abandonei aquela idéia, que continuo achando boa, a que pode descambar no tal romance épico, mas guardei na gaveta para uma futura reavaliação. Parei por falta de maior conhecimento sobre a mecânica da escrita de longo curso. Preciso estudar, preciso treinar, conclui.

Uma longa história me pareceu como desmontar e remontar um motor de automóvel. Sem conhecimento técnico é praticamente impossível fazer um trabalho de qualidade. Afinal, o mecanismo, depois de remontado, precisa funcionar perfeitamente. Durante o trabalho, além de saber organizar as centenas de peças resultantes da desmontagem, há que se exercer força bruta, persistência, jeito e domínio das ferramentas. Tudo isso sem medo ou nojo do óleo e da graxa com que fatalmente se emporcalhará.

Comecei a procurar fontes de informação sobre o ofício de escrever. Descobri que muitos escritores haviam produzido textos sobre a produção literária. Cito alguns dos mais conhecidos: Ítalo Calvino, Milan Kundera, Thomas Mann e o Mario Vargas Llosa e dois menos famosos, o David Lodge, do precioso A Arte da Ficção e a Anne Lamott, do surpreendente Bird by Bird, sobre os quais me sinto obrigado a escrever, porém em outra ocasião.

Havia acabado de ler alguns livros do Mario Vargas Llosa e gostado muito. Dois deles, Tia Julia e o Escrevinhador e Travessuras da Menina Má, são obras primas. Como na sua bibliografia mencionava um certo, Cartas a um jovem escritor (quando gosto de um escritor sempre dou uma pescoçada na relação de obras publicadas no Brasil), decidi começar por ali.

Há muito deixei de ser um homem jovem, mas isso não significa que eu não seja um jovem escritor. O livro de Vargas Llosa é um manual da prática do escrever romances. Um homem que dedicou toda a vida a isso tem muito a dizer sobre o seu ofício e ele faz isso de forma organizada, leve e bem humorada. Do seu Cartas a um jovem escritor (Cartas a un joven novelista), além das soluções apresentadas para as questões estruturais que aparecem quando se pretende contar uma história, a maior lição que tirei diz respeito à persistência na criatividade acima das técnicas da boa redação.

Um livro pequeno, mas de valor incalculável para quem deseja ou, como eu, descobre que precisa escrever.

“Toda vida merece um livro”, palavras de Mario Vargas Llosa.

sábado, 7 de abril de 2012

A Manobra do Rei dos Elfos

Imagine José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e Ruy Barbosa, reunidos, a pedido de D. Pedro II, para uma missão do tipo capa e espada, em lombo de cavalos. Imagine que os quatro - alguns já na meia idade -, além de galopar até a fronteira com a Argentina ou o Paraguai, lá, por meio de escaramuças e tiroteios, tivessem como objetivo resgatar um prisioneiro político das garras do tirano de plantão. Muito maluco, não é?

É, mas bem que poderia resultar em alguma coisa... interessante.

O jovem escritor alemão Robert Löhr fez. Ele convocou, para protagonistas no seu romance A manobra do rei dos elfos (Das Erlkönig-Manöver), nada mais, nada menos, que o escritor e pensador Goethe, o poeta, filósofo e historiador Schiller, o também escritor e dramaturgo Kleist e o geógrafo e explorador Humboldt, para uma missão tresloucada, com direito a explosões, tiros na noite e, claro, capa e espada. O objetivo: resgatar das garras de Napoleão Bonaparte o herdeiro de Luís XVI, o delfim Luís Carlos, que havia sobrevivido milagrosamente, ao cárcere da Revolução Francesa, mas que estava condenado à morte.

Quando li algumas resenhas desse livro fiquei desconfiado, pois costumo evitar esse tipo de salada histórica. Por outro lado, havia elogios suficientes a respeito do trabalho do Robert Löhr. Ler um romance é sempre bem melhor do que bula de remédio, não é mesmo? Como não me arrisco em mesas de jogos, mas não resisto a uma estante de livraria, comprei o livro.

Scaramouche, do escritor Rafael Sabatini, Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas pai, é por aí a coisa. Mais: discussões filosóficas, políticas e existenciais, obviamente, pululam entre as páginas nas bocas dos personagens, todos pensadores cultos. Uma delícia em forma de texto bem humorado, humanitário (os mocinhos só matam os bandidos em último caso) e romântico. Ah! Também tem amor e sexo no meio do mato. Tudo muito natural.

O livro me surpreendeu e me divertiu, mas eu gosto muito de romances de aventura.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

1421 – O ano em que a China descobriu o Mundo

Essa história da descoberta da América pelo Colombo já virou lorota. Faz tempo que se sabe que os primeiros europeus a pisar na América foram os noruegueses no final do século 8, entre os anos de 983 e 986. Também reconhecemos que aquelas incursões não resultaram em nada, pois o que restou delas são apenas vestígios arqueológicos, coisa bem diferente do que aconteceu depois que Colombo aportou (ou seria aprontou?) quinhentos anos depois.

Tranquilo e sábio com essas informações me deparei com um livro que afirmava, nada mais, nada menos, que eu não sabia de tudo e que havia mais personagens entre uma e outra chegada às Américas: os chineses. Sem mistério, pois na capa o título já entrega o assunto, 1421 – O ano em que a China descobriu o Mundo (1421 - the year China discovered the world), o livro é uma paulada na moleira da nossa história.

Curioso como um gato imprudente corri atrás dos escritos do Gavin Menzies. Descobri que o sujeito é um comandante de submarinos reformado da marinha britânica. Ora, para escrever sobre navegações nada pode credenciar mais um marinheiro do que passar a vida toda navegando pelos sete mares, e mais, pela marinha da Inglaterra, coisa que o Sr. Gavin fez.

De acordo com ele, toda a história oficial sobre os descobrimentos deverá, em breve, obrigatoriamente ser reescrita. É um caso de pura e cristalina justiça. Quem descobriu o Brasil? Foi Pedro Álvares Cabral. Recitam as criancinhas desde o primeiro ano primário. Errado, foi Hong Bao. Quem? Hong Bao, um almirante chinês, eunuco e fiel ao seu imperador Zhu Di, da disnastia Ming.

O autor afirma que os navegadores portugueses, espanhóis e italianos puderam chegar à América e a outros lugares graças a cartas náuticas que haviam sido copiadas de mapas chineses desenhados 70 anos antes das viagens dos navegantes europeus. Por exemplo: o Estreito de Magalhães era conhecido por eles como Rabo do Dragão. E por aí vai. Descobri que os chineses circundaram o globo um século antes de Magalhães e que chegaram à América setenta anos antes de Colombo e à Austrália 350 anos antes de Cook.

Tem muito mais no livro escrito para leigos em uma tocada super digerível que me fez ir até o fim sem parar. Não basta o assunto ser interessante se o autor não escrever bem e isso o Gavin Menzies sabe.

Eu, que gosto muito de História, adorei ler sobre os almirantes chineses e suas esquadras de tesouros com mais de três mil juncos, muitos deles com até 150 metros de comprimento (as caravelas tinham cerca de onze metros), que zarparam da China em 1421 para conhecer o mundo. O que aconteceu com eles e por que não se sabe disso há mais tempo? O livro conta.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Livro Selvagem

De vez em quando aparece uma coisa assim na vida da gente. Felizmente, em se tratando de livros, isso vem acontecendo com frequência na minha: encontrar um encantador.

Provavelmente é porque não me canso no caçar livros. Não passo um dia sem pesquisar por aí, nos canais disponíveis (hoje, mais do que nunca, eles são muitos e variados), sobre novos livros e seus escritores. Tem valido a pena.

Pouco tempo atrás li uma resenha sobre um novo livro, de um autor que não conhecia, e entendi que ele havia escrito uma história sobre um menino e suas aventuras na fantástica biblioteca de seu tio, onde há livros surpreendentes, ou melhor, “vivem”. Eles se movimentam, trocam de lugar pela biblioteca do tio. Podem ser bons ou maus e alguns até se escondem de leitores com quem implicam, essas coisas de quem tem sentimentos. O que sabemos que os livros tem, não é mesmo? Como eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso, comprei o bicho, quer dizer, o livro. Curioso para descobrir o que o autor tinha escrito sobre o tal “O Livro Selvagem”.

Juan Villoro, escritor mexicano, surpreende com seu romance fabuloso sobre o menino Juan e sua inesgotável disposição na procura do livro selvagem. Aquele que nunca havia se deixado ler e que ninguém sabia o que estava impresso em suas páginas, conforme afirmava seu tio. O livro escolheria seu primeiro leitor e Juan estava certo de que seria o eleito, mesmo que fosse na marra. (O autor escreve - e quem sou eu para duvidar disso – em uma narrativa autobiográfica.)

“O Livro Selvagem” é para sempre. É para ser guardado junto dos meus favoritos e que nunca mais poderei deixar de recomendar aos amigos, principalmente aos que tem jovens leitores sob sua guarda.

terça-feira, 20 de março de 2012

Fundação de Isaac Asimov

Gosta de viajar? Consegue pensar em lugares diferentes para onde gostaria de ir? Buenos Aires, Montevidéu, Acapulco, Londres, Paris ou Nova York? Que tal uma viagem em direção ao centro da galáxia e do império humano, que então ocupa mais de vinte milhões de planetas? O que acha de realizar saltos pelo hiper-espaço? E fazer, em um par de horas, viagens que de outra forma levariam milhares ou até milhões de anos? A maior parte de nós, trogloditas espaciais, não consegue nem imaginar o que Isaac Asimov criou e se transformou num dos romances mais impressionantes sobre um futuro distante da humanidade. Ficção científica? Claro, o que outra coisa mais poderia ser?

A viagem patrocinada pelo autor começa no centro de uma galáxia, que já nem é mais a Via Láctea, no planeta Tantor. Dezenas de milhares de anos no futuro, a Terra e o Sol ficaram tão para trás na história que não passam de uma lenda sobre as origens da raça humana. Pesquisadores e arqueólogos dedicam vidas à sua procura. Ninguém sabe ao certo onde fica. Alguma coisa semelhante, para nós, ao lugar preciso na África de onde vieram nossos longínquos antepassados homo sapiens. Alguém já sabe onde exatamente fica isso? Ninguém tem certeza.

Quem tem certeza de que daqui a mais de vinte mil anos não será possível existir um planeta como Tantor, que no seu auge terá sua superfície de 194 milhões de quilômetros quadrados, totalmente ocupado por uma única e contínua cidade com uma população de mais de quarenta bilhões de pessoas? Tantor, no romance de Asimov, é o centro administrativo do império humano, governante de várias galáxias e suas centenas de milhões de planetas habitáveis, com centenas de bilhões de súditos.

Isaac Asimov, como bom ficcionista, assume que tudo é possível se a imaginação inventa. E ele o faz com força e qualidade. Afinal, não teve um escritor famoso que escreveu uma história onde um sujeito virava um inseto gigante? Kafka, não é mesmo?

O autor de Fundação não fica só nisso, de inventar novos mundos. Ele se embrenha numa cadeia de revelações sobre o futuro do futuro da humanidade. Cria uma nova ciência, a psico-história, e me jogou em vários saltos de milhares de anos à frente do próprio tempo de Tantor.

O que mais me impressionou no livro Fundação foi a qualidade da trama criada pelo Asimov. Ele inventa situações limites e as soluciona apresentando reviravoltas como somente um homem sábio as poderia engendrar.

Não fique triste quando se aproximar do fim do livro. Volte à livraria e compre os outros dois volumes da trilogia, Fundação e Império e Segunda Fundação.

Gostei tanto da ficção do Asimov que emendei direto na leitura de, O Fim da Eternidade, onde paradoxos sobre viagens no tempo é mato. Mas isso já é assunto para outra hora.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Guerra dos Tronos e outros romances medievais.

Tenho uma queda fatal por livros de história e romances passados na idade média. Podem ser registros sobre a história da época, romances históricos ou simples invencionices de um escritor, para mim não faz diferença. Eu gosto. Claro que faço algumas restrições, a principal delas, óbvio, é a qualidade do texto. Mas essa exigência é coisa que venho desenvolvendo mais recentemente (as vezes lamento isso). Lamento porque quando era mais novo lia qualquer coisa com deleite. Hoje, mais experiente com a linguagem escrita (e por isso mais besta), me surpreendo com dificuldades em certas obras, cujo assunto me interessa, mas onde o autor (ou o tradutor) não fizeram um bom trabalho. Quer um exemplo? Feliz da vida, achando que tinha descoberto um tesouro, pois são treze volumes, parti para cima da Saga dos Plantagenetas escrita pela escritora inglesa Eleanor Alice Burford Hibbert, sob o pseudônimo de Jean Plaidy. Não consegui, tamanha a chatice. Cheguei a ler (pior, comprei) os três primeiros livros da série. Desisti. Se alguém conseguir suportar a maratona garanto uma mariola. Outra restrição importante é o excesso de maionese na salada ou da fantasia exagerada: nunca me interessei por histórias com dragões e outros quejandos. Há romances mais modernos, com esse bicho e outras metáforas, dos quais gostei, mas isso é coisa para outra conversa.

O interesse pelo medieval se firmou por volta dos meus dez anos de idade quando, depois de ler Robin Hood(1) e Ivanhoé(2), tendo gostado muito, descobri o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Desde aquele momento procuro o tempo todo por histórias medievais. Não é fácil.

Não é complicado ler sobre a idade média, se você se contentar com o que existe a partir dos tempos de Carlos Magno (642– 714 d.C.). Mas isso já não é quase na metade dela? Algum exagerado pode perguntar e é verdade (a metade da idade média seria por volta do ano 1.000 d.C.). É escasso, difícil de achar e ler material sobre o que aconteceu entre os séculos V e VIII. Uma explicação simplificada para isso seria a queda de Roma (476 d.C.) e a conseqüente “esculhambação” instaurada na Europa. Eram bárbaros por todo lado, invadindo aqui, incendiando ali e que não deixavam em paz os candidatos a escriba que poderiam ter registrado os fatos. Se eles não se trancassem num mosteiro encarapitado no alto de alguma montanha - o que tornava seu trabalho de cronistas bem mais difícil de ser realizado - corriam o risco de serem mortos ou escravizados. Não é a toa que aqueles dias ficaram conhecidos como Idade das Trevas.

De alguns anos para cá uma excelente safra de romances com o tema foi publicada.

O mais famoso nesses dias é A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones), que é o título do primeiro volume de uma série prevista para sete de As Crônicas de Gelo e Fogo* (A Song of Ice and Fire), do escritor americano George R. R. Martin. Aqui há bastante fantasia e até dragões, mas ainda não chegaram a me incomodar.

Faz parte das minhas favoritas as Crônicas Saxônicas** (The Saxon Stories). O livro O Último Reino (The Last Kingdom) é o primeiro de prováveis sete volumes (até agora foram lançados seis no Brasil, o sétimo está para sair na Inglaterra e Estados Unidos) de um épico histórico do inglês Bernard Cornwell. O período em que é tocada a narrativa dos livros se passa durante uma das várias tentativas dos dinamarqueses de conquistar a ilha inglesa, ali pelo final dos anos 800.

Obra prima: As Crônicas de Artur (The Artur Books), com seus três volumes: O Rei do Inverno (The Winter King), O Inimigo de Deus (Enemy of God) e Excalibur, também do Bernard Cornwell, lambem as beiradas da história da Inglaterra e da Bretanha (norte da França) no tempo em que as legiões romanas haviam acabado de deixar a ilha para saírem da história. Portanto é uma rara oportunidade de se ler um romance da Idade das Trevas.

O romance A Longa História é um exemplo de maravilhosa literatura que tem a idade média como cenário. O detalhe, que leva esse romance a ser um tesouro raríssimo, difícil de se encontrar similar, é que o autor, Reinaldo Santos Neves, é brasileiro. O escritor capixaba também tem outros livros com temática medieval. Destaco A Folha de Hera, Um Romance Bilingue (três volumes, todos escrito em português e inglês). Impossível deixar de ler.

O Bernard Cornwell ainda tem outros cinco livros sobre a idade média. Todos ótimos e situados no período da Guerra dos Cem Anos (de 1337 a 1453) entre ingleses e franceses. Três compõem a trilogia A Busca do Graal, que teve agora uma continuação num quarto volume, que não trata mais do Santo Graal, mas da espada sagrada de São Pedro, 1356 (ficando algo como os três mosqueteiros que eram quatro). O primeiro volume é O Arqueiro (Harlequin - The Archer’s Tale), o segundo O Andarilho (Vagabond) e o terceiro é O Herege (Heretic). O quinto e último dos livros sobre a Guerra dos Cem Anos é Azincourt. Esse conta a história da épica batalha (que empresta o nome ao livro) de 25 de outubro de 1415, quando cinco mil arqueiros de arcos longos ingleses, protegidos por cerca de novecentos homens de armas (cavaleiros desmontados) deram uma surra memorável na fina flor da cavalaria francesa que compunha um exército de mais de vinte mil homens (há controvérsia sobre os números dessa batalha). Naquela época os arcos longos ingleses eram uma espécie de bomba atômica dos campos de batalha. Leitura imperdível.

 __________________________________________

1. A versão mais conhecida da história de Robin Hood foi escrita e ilustrada pelo americano Howard Pyle (1853-1911), mas até Monteiro Lobato (1882-1948) escreveu uma, publicada na antiga Coleção Terramarear.
2. O autor de Ivanhoé é Sir Walter Scott (1771-1832).
(*) Os outros volumes da série Crônicas de Gelo e Fogo são: A Fúria dos Reis (A Clash of Kings), A Tempestade de Espadas (A Storm of Swords), O Festim dos Corvos (A Feast for Crows) e o quinto volume, A Dança dos Dragões (A Dance with Dragons). Os livros The Winds of Winter (sexto volume da série que está em fase final de redação, com lançamento previsto em 2015) e A Dream of Spring, o sétimo volume, que encerrará a série, sem previsão de lançamento (desconfio que ainda nem foi escrito).
(**) Outros volumes da série Crônicas Saxônicas são: O Cavaleiro da Morte (The Pale Horseman), Os Senhores do Norte (The Lords of the North), A Canção da Espada (Sword Song), Terra em Chamas (The Burning Land) e Morte dos Reis (Death of Kings), lançado em 2011 nos Estados Unidos e Grã-Bretanha e recentemente no Brasil. O autor jura que produzirá outros volumes, pelo menos até o sétimo. Não tenho tanta certeza disso.