quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

2666


Demorei, mas terminei de ler o último romance de Roberto Bolaño. Um livro com mais de oitocentas páginas. Em vez das habituais duas ou três semanas, fiquei nele três meses. Falando assim, parece que a leitura não foi grande coisa, que teria seguido mais para o cansativo do que a curtição, o que é um engano. O livro é magnífico, mas logo depois que o escreveu o autor morreu, por isso é o seu último trabalho. Não pensem que morreu por causa do livro, apenas aconteceu-lhe a infelicidade natural de quem está vivo, no caso dele a de ficar doente e seguir o curso da natureza de voltar ao pó, com apenas 50 anos de idade. Na verdade Roberto Bolaño morreu um pouco antes do livro ficar realmente pronto. Ele não pode ir até aquele momento em que o autor coloca o ponto final nas releituras e correções, então suspira de alívio, ou grita de alegria, e envia o livro para o editor. Bolaño deixou o trabalho ainda precisando de alguma revisão e edição no texto, nada que tivesse impedido seus editores de considerar que o romance estava pronto para ganhar o mundo. Há sobre isso, no final do livro, uma nota esclarecedora.

É um romance estranho, mas interessante, do tipo que faz o leitor querer continuar a leitura até o fim, mas, mesmo assim, fiquei agarrado nele três meses. Por que?

No começo Bolaño conta a história engraçada e irônica sobre a adoração que uns críticos literários europeus têm acerca de um escritor alemão, supostamente recluso, um tal Benno Von Archimboldi. Ficam caçando o escritor, ministrando palestras sobre ele e praticando coisas hilárias pela Europa até chegarem ao México, seguindo uma pista improvável. Quando parece que vão desvendar o mistério sobre o paradeiro do escritor, a história sofre uma guinada e mergulha em uma zona nebulosa, num lugar estranhíssimo, o México. O ritmo é alterado e isso fez diminuir a velocidade da minha leitura. Por que? Porque fiquei relendo o começo tentando reatar o fio da meada. Não havia nada ali, claro, no começo. Desisti e toquei como se fosse outro livro: a história de um sujeito chamado Amalfitano, lá no México.

Lá pelas tantas acontece outra mudança de ritmo e de enredo, mas eu já estava escolado e segui em frente. Ainda no México, vem a história de um jornalista americano que está ali cobrindo uma luta de boxe, coisa que por lá tem status semelhante ao da religião católica. Depois aparece a história onde um maníaco depreda igrejas e ataca sacristãos. Depois começam os assassinatos. Aí foi a hora em que uma pedra se instalou no meu estômago. São dezenas de descrições de cadáveres mutilados de mulheres, sempre no México.

Nesse momento achei que já havia me entendido com o Roberto Bolaño. “Bom, ele estava escrevendo vários livros, descobriu-se seriamente doente e que não terminaria qualquer um deles. Juntou tudo, criou uma linha fininha ligando mais ou menos a coisa toda e mandou para a editora.” Pensei.

Errei.

Logo estávamos de volta à Europa, seguindo em direção ao fim da história enquanto os fios da meada se ligavam de maneira genial.

É diferente, é fragmentado, é novo e bem escrito. Roberto Bolaño produzia literatura de qualidade quando deixou esse mundo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Morte Súbita


Quem diria! A escritora J. K. Rowling lançou um livro que não fala de bruxos ou magia! Bem que ela avisou que não queria mais saber das histórias do feiticeiro mirim Harry Potter – nem tão mirim nos últimos volumes.

Tenho certeza de ter lido dois livros da série. Gostei muito do primeiro, achei bom o segundo e, apesar de estar quase certo de ter lido também o terceiro, não me lembro do que havia nele. Culpa dos filmes, todos ótimos! Diversão garantida, mas que prestaram um desserviço à autora me embaralhando a memória e satisfazendo minha curiosidade, a tal ponto que desisti de seguir comprando, mesmo em saldos ou em barraquinhas de feiras de livros, os outros volumes da série. Espero que a Senhora Rowling não tenha sentido a falta do meu dinheiro. Afinal, ela já estava beirando os 450 milhões de exemplares, vendidos pelo mundo todo, quando parei.

Estava parado até agora, quando não resisti à tentação da novidade e comprei seu último lançamento: Morte Súbita (The Casual Vacancy), o primeiro livro que escreve para adultos e não para pequenos e adolescentes (e crianças grandes como eu que não resistem a uma boa história de aventuras). Depois de terminada a leitura não restou dúvida a respeito de a quem o texto é dirigido.

No novo romance ela escreve a crônica de um vilarejo inglês, Pagford.  A coisa começa com um acontecimento inesperado, que dá o título à obra: a morte súbita de um cidadão querido por muitos (não por todos) e importante para os projetos da administração do lugarejo.

A autora conduz a narrativa num crescendo de pequenas fatalidades, desencontros e intrigas de todos os tipos entre os vizinhos. É véspera da reunião para a tomada de algumas decisões capitais ao futuro daquele subúrbio inglês. Mas, como resultado imediato da morte súbita do Sr. Fairbrother, a pequena assembleia local, responsável por tais resoluções, fica desfalcada, o que causa desequilíbrio entre duas facções dominantes. Antes de mais nada, há urgência na escolha de um novo conselheiro. Tudo pode acontecer enquanto o entrevero se desenvolve, misturando adolescentes de mau comportamento, adultos de caráter duvidoso, idealistas equivocados e a utilização da internet para o mal.

A qualidade da trama, da construção dos personagens, com suas sutilezas psicológicas, surpreende. Talvez eu estivesse esperando o texto de alguém que conhecia por suas boas narrativas fantasiosas e mirabolantes e me deparei com densidade e drama.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

No Jardim das Feras

Desde menino tenho fascínio por aviões e navios. A história da Segunda Guerra Mundial, publicada exaustivamente em livros e enciclopédias, era uma fonte inesgotável de leituras sobre as peripécias dessas duas invenções (apesar dessa adoração pelos aviões e navios, preciso manter certa distância, pois sofro de enjoos quando embarco em qualquer um dos dois).
Durante algum tempo, e já não era tão menino, minha fonte predileta foi uma coleção de pequenos livros da Editora Renes: História Ilustrada da Segunda Guerra.
Palavras como Stuka, Messerschimitt, Spitfire, Mustang, Fortaleza Voadora, Bismark, Graf Spee, V2 e muitas outras, tinham um significado romântico e aventureiro naquela cabeça curiosa de candidato a herói. Claro, que no meu inocente encantamento pelos soldados, marinheiros e pilotos, heróis lutando com suas máquinas fabulosas, não percebia o lado negro da guerra – tem sempre gente que estraga tudo, não é mesmo? Os arquivos e a literatura estão lotados de escritos, romanceados ou não, sobre os homens e mulheres que lutaram na Segunda Guerra, sem muitas considerações sobre os aspectos morais do lado do front em que militavam.
A vida segue e continuamos as leituras, aprofundamos o interesse e, das máquinas fabulosas e seus pilotos, das aventuras heroicas nos campos de batalha: partisans, comandos, ases da aviação de caça, passamos a cavar motivações e a moralidade dos feitos. A guerra não é bela.
Não desisti dos aviões nem dos navios. Continuo achando bonitas as silhuetas, incrível o desempenho das máquinas que estavam por aí naquela época dantesca, e heroico o desprendimento dos que tinham coragem de lutar a bordo de maquinetas que hoje seriam proibidas de decolar ou desatracar de qualquer cais. E as minhas pesquisas e leituras continuam.
Uma nova - provavelmente a última – etapa, no meu interesse pela Segunda Guerra, se materializou na forma da curiosidade sobre o que acontecia antes dela, o que levou as coisas àquele patamar de violência irracional. Então, o foco passou a ser a Alemanha, seus personagens e o povo que vivia por lá e que permitiu, pelo voto, que Hitler e seus capangas assumissem o poder absoluto.
É fácil achar o que ler sobre isso: o que acontecia antes do nascimento e desenvolvimento do nazismo, a preparação da guerra, a guerra, seu desfecho e a loucura dos que governavam a Alemanha. Na internet qualquer um encontra quase tudo sobre a Segunda Guerra, mas é leitura de livro de História, descritiva e xarope para muitos, mesmo para mim que leio há muito tempo sobre o assunto.
O livro do jornalista norte-americano Erick Larson, No Jardim das Feras (In the Garden of Beasts) - na edição brasileira criaram um subtítulo boboca, Intriga e sedução na Alemanha de Hitler-, não é obra de ficção e mostra o começo de tudo por um ângulo diferente. Baseia-se principalmente nos documentos pessoais do embaixador Dodd e na correspondência trocada com o Departamento de Estado em Washington. Também serviram de fonte os arquivos e as cartas de sua filha namoradeira, Martha, trocadas com amigos e o ex-marido, deixados nos Estados Unidos e em documentos e diários dos outros personagens envolvidos.
É 1933 quando o professor universitário Dodd, bem relacionado em Washington, mas duro de dinheiro e sem experiência diplomática, é nomeado embaixador dos Estados Unidos e chega na Alemanha para trabalhar. Até a nomeação do professor Dodd era costume dos países, inclusive do republicano Estados Unidos, enviar para suas representações “diplomatas de carreira”, que naquela época significava: homens ricos, da alta sociedade, que se valiam do cargo para patrocinar um tipo de diplomacia de salões de festa, esbanjando o dinheiro do próprio bolso.
O professor Dodd virou embaixador por iniciativa do presidente Franklin Roosevelt, atropelando a hierarquia “profissional” da diplomacia americana. Seus subordinados rancorosos da embaixada na Alemanha e os colegas do Departamento, em Washington, se perguntavam uns aos outros como ele poderia sobreviver no exterior apenas com o salário de embaixador. Ele conseguiu. Sua filha também conseguiu fazer o que mais gostava: namorou quase todo mundo que valia alguma coisa na Alemanha, incluindo o chefe da Gestapo de plantão, Rudolf Diels, um espião da Rússia de Stalin e, não por falta de tentativa, quase “pegou” o próprio Hitler.
O livro No Jardim das Feras é hipnótico. Mostra, sob a ótica de um intelectual oriundo das universidades americanas, o princípio, quando o nazismo ainda era apenas um refogadinho anti-semita, atraente à grande parte das nações e apetitoso à maioria faminta do povo alemão. Termina quando o professor Dodd é, finalmente, vencido pelos desafetos e mandado de volta para casa enquanto a Alemanha já era uma imensa panela de pressão, exibindo os sinais da grande explosão.
 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O silêncio do túmulo


Uma trama intrincada e uma história bem contada é o que imagino que todos procuram quando vão ler um romance policial. Arnaldur Indridason conta uma história desse tipo no seu livro, O silêncio do túmulo (Grafarþögn).

Para começar, a narrativa se passa em Reykjavík, na Islândia, e isso a torna diferente da maioria das histórias de detetive que andei lendo. Essas, até agora, sempre se passaram em algum lugar dos Estados Unidos, da Europa, principalmente Grã-Bretanha ou França e até mesmo no Brasil. (Islândia? Não é aquele lugar gelado e cheio de vulcões com nomes impronunciáveis?)

Através da trama do Arnaldur outra coisa acontece: somos apresentados à história recente da Islândia, desde a época da Segunda Guerra, quando a ilha foi “ocupada” por tropas britânicas e americanas, com o pretexto de defendê-la de uma possível (mas remota) invasão nazista. Também passamos a conhecer um pouco do desenvolvimento de sua capital, Reykjavík (até mapinha tem no livro).

Coisas interessantes não faltam ao enredo. Os personagens também são importantes nesse tipo de literatura e estão lá - solidamente construídos - e nosso herói, o inspetor Erlendur, com sua determinação profissional, vida particular caótica e um caminhão de ansiedades, é perfeito.

Tudo começa nos idos de 1940, no seio de uma família dominada por um homem monstruosamente violento, e vem até nossos dias quando é descoberto um túmulo clandestino. De quem é o cadáver? O que aconteceu para ele ser enterrado ali? São perguntas que levam o livro todo para serem respondidas, claro. Valeu a pena ler a história até sua última palavra.

Divertimento garantido, de qualidade.

O silêncio do túmulo – Arnaldur Indridason – Companhia da Letras.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

1Q84


Antes, minha única aventura pela literatura japonesa se chamava Musashi, do Eiji Yoshikawa. É o romance biográfico sobre o samurai famoso Myiamoto Musashi. Resenhas elogiosas e o comentário favorável de um amigo me deixaram animado para encarar o tijolo (dois grossos volumes). Não consegui ir além das primeiras vinte ou trinta páginas: xarope sonífero. Havia sido intoxicado pelos arrasadores filmes medievos do Kurosawa e o ótimo romance Xógum, também sobre o Japão medieval, mas escrito pelo inglês australiano James Clavell, então fiquei frustrado. Queria muito conhecer a história do herói samurai, sou curioso sobre o Japão feudal, mas não deu. Por sorte os livros eram emprestados e foi só uma questão de devolução, senão a tijolada teria sido dolorosa.

Vinte anos depois, cá estou novamente com um livro de outro japonês, dessa vez o Haruki Murakami e o seu 1Q84 - é assim mesmo com Q (foi uma forma criativa que o autor encontrou para grafar 1984, ano em que se desenrola a trama do romance e  também uma homenagem ao livro de George Orwell, 1984). Pelo que entendi, a letra que, em japonês, tem pronúncia semelhante à do número nove em inglês: nine.

Só falo dos livros que gosto. Mas 1Q84 é um livro esquisito. Não posso dizer que gostei, mas não consegui parar de ler e quando terminei fiquei com a sensação de que vou acabar comprando o segundo volume, a continuação do romance. Por isso escrevo.

Pensando no que acabara de ler, lembrei do Musashi, que é um livro de ritmo lento, texto prolixo e repetitivo. Me voltou à memória que esse tipo de coisa me tirou a paciência e me fez abandonar a empreitada, quando tentava ler as aventuras do samurai. Qual a diferença entre os dois livros e porque consegui ir até o fim do segundo?

Em 1Q84 há sexo, bebedeiras, tiros, facadas, mulheres e homens honestos, assassinas lascivas e pilantras de vários tipos. Em Musashi há homens maus, cabeças cortadas e ventres abertos em profusão, mas é pura ética e moral samurai, em densidade religiosa. 1Q84 conta com parágrafos e parágrafos de texto prolixo, perorativo. O autor repete e repete descrições e costuma explicar o mesmo fato mais de uma vez. O livro é, em vários momentos, exasperante. Pulava trechos sem fim, mas não largava a leitura. Em Musashi isso não adiantava, era só pular da panela para a frigideira, pois o maior problema lá era a velocidade – a escrita impõe um ritmo que me levou ao desânimo e à desistência. Murakami, culto e esperto, mistura suspense, mundos paralelos, personagens misteriosos, seitas religiosas, terroristas, ternura, amor e texto repetitivo. Apesar desse defeito da narrativa, o japonês conduz numa trama interessante, exótica o suficiente para manter o meu interesse no desfecho. Cheguei a suspeitar da tradução: será que a transcrição descuidado do conteúdo dos ideogramas para o português pode gerar um texto repetitivo?, pensei, totalmente ignorante do idioma japonês.

Pensando bem, vou fazer mais uma tentativa na leitura do Musashi.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O fim da infância


O inglês Arthur C. Clarke escreveu muitos livros. O mais conhecido no Brasil é 2001, uma odisséia no espaço. 2001 é bom e histórico, afinal, virou um filme e dos bons. Esse, O fim da infância, que acabo de reler, foi um dos primeiros que ele escreveu e é um dos melhores entre os que li. Rivaliza até com Encontro com Rama, que considero sideral, quer dizer, maravilhoso. O fim da infância, primeiramente, foi escrito como um conto curto (Anjo da Guarda) e, depois de sofrer algumas intervenções promovidas pelo seu agente literário, transformou-se no primeiro capítulo do romance.

O conto original foi publicado em uma revista em 1950, o livro em 1953 (uma observação, do autor, nos lembra de que o livro precedeu em quatro anos o lançamento do primeiro satélite terrestre, o Sputnik). Logo depois, em 1956, Hollywood comprou os direitos do livro. Esse direito, à produção cinematográfica, já mudou de mãos várias vezes, mas ninguém o produziu. A leitura me fez ter alguma ideia do porque dessa “demora”. A cena inicial do filme Independence Day, em que as naves alienígenas chegam e estacionam sobre as principais cidades terráqueas, pagou direitos autorais aos detentores dos direitos cinematográficos sobre o romance. Entretanto, o resto do filme não tem nada a ver com o resto do livro.

O que há de mais interessante nesse romance, de ficção científica, é que se passa todo sobre a superfície do nosso planeta. A parte em que um dos personagens faz uma viagem espacial é acessória, pois o mais importante é o que acontece, oitenta anos depois da partida, quando retorna ao seu lar, a Terra.

O livro é assombroso. É uma viagem sem volta. Diante da cronologia dos fatos associados às datas, do lançamento do livro ao início da conquista espacial, que o romance precede, imagino como deve ter sido lê-lo na época em que foi publicado. Recomendo como um excelente “abridor de mente”. Aposto que a maioria dos leitores não continuará a ser mesma pessoa depois de terminar a leitura. O autor, no tempo em que escrevia o romance, pesquisava o universo do que chamamos de paranormal. Apesar de alguns anos depois ter se transformado em um cético, seu livro consegue nos envolver numa atmosfera carregada pela exibição da inevitável evolução e o fim das coisas, da vida e até da história do homem sobre a superfície do planeta.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Bird by Bird


Quando comentei o livro do Mario Vargas Llosa, Cartas a um jovem escritor, mencionei um outro livro, o Bird by Bird, da Anne Lamott, e disse que ele merecia, oportunamente, um comentário próprio. Aí vai.

- Então, você quer escrever um livro?

- Quero.

- O melhor a fazer é ir escrevendo logo. Supondo que você tenha alguma coisa sobre o que escrever, não é?

- Tá na minha cabeça há muito tempo.

- O que está esperando para colocar isso no papel? Se é como diz, que isso está em você há tanto tempo... Vai, senta e escreve. Ou prefere que antes eu lhe mostre como é que se transforma ideias em texto? (Puxa! Como seria bom se isso fosse possível na vida real – aparecer alguém com disposição para nos desentranhar nos caminhos da escrita)

- Eu adoraria! Já fiz várias tentativas, sem resultado. Essa coisa continua assombrando de dentro da minha cabeça. Não sai de lá nem consigo esquecê-la.

- Olha, parece complicado, mas na verdade é simples, se você tomar algumas medidas que favoreçam o fluxo das ideias. Esse é um ponto. Disse o mestre.

- Tá, até aí eu fui. Ideias não me faltam. Mas me enrolo na organização delas. Começo a escrever e, em pouco tempo, fico enredado pelas várias possibilidades, os muitos caminhos para a narrativa seguir. Empaco. Começo a acreditar que escrever é mais um trabalho de organização do que de criação. Acho que a diferença entre o escritor e os simples mortais está na capacidade de um transformar impulsos cerebrais em texto inteligível, criativo e novo, não importa o assunto, enquanto aos outros, como eu, até agora, cabe ficar nos mata-burros das primeiras linhas. É como se um grande pensamento branco tomasse conta do cérebro. E lá fica a ideia, acenando, como quem diz: vai, me escreve, qual o problema? Afinal, sou toda sua e estou bem aqui, na sua cabeça.

- Chegou perto. Vamos olhar com mais cuidado esse ponto. Deixa a organização do seu “romance” para mais adiante. O primeiro passo é tirar o máximo da tal idéia, algo que possa se transformar em texto, como você mesmo disse, inteligível, criativo, essas coisas. Qualquer rabisco vale. Frase solta vale. Sem organização mesmo...

- E como isso é feito?

- Ora, escrevendo.

- Mas...

- Espere. Sei que vai dizer que empaca etc. Aqui, quando digo que é escrevendo que se começa a tirar a ideia da cabeça, não falo da produção do texto final, mas apenas daquela pressão que, novamente usando as suas palavras, lhe assombra a cabeça há tempos.

- Mas, ao conseguir escrever isso, não estou trabalhando com a minha ideia e produzindo o livro?

- Sim e não.

Fiquemos imaginando que a conversa continua. Muitas páginas serão necessárias para narrar a epopeia do mestre, disposto à tarefa de desvendar, ao neófito, os mistérios que se ocultam por dentro da mente daqueles que conseguem produzir escritos, inteligíveis, criativos e novos, não importando o tema.

Este diálogo, infelizmente, é um bocado improvável, mas pouparia o tempo de muito candidato a escritor. É improvável porque dificilmente se encontrará o sábio interlocutor, com a disposição de ensinar o caminho entre as pedras (e espinhos) da produção literária.

Mas, para isso também há remédio. Procurando a solução para o meu problema - sim, leitor incauto dessas linhas, o neófito sou eu -, encontrei mapas que mostram alguns desses caminhos entre as pedras. Descobri, seguindo aquelas pistas, que há muitos deles por aí: escritos que falam do escrever.

Há os livros técnicos, os eruditos, outros até são engraçados e alguns, os melhores, conseguem misturar um pouco de tudo para dar ao leitor, interessado em se passar para o lado do escritor, boas informações sobre o prazeroso, mas extenuante, ofício de escrever.

A triste verdade: não há quem ensine a escrever! Tudo vai depender apenas daquilo que você já sabe – desde os tempos da escola – e/ou apreendeu dos muitos livros que leu. Ah, não leu muitos livros? Vai subir uma ladeira bem mais íngreme. Para escrever com qualidade - que não significa apenas o domínio das técnicas, mas a facilidade de escolher a sintaxe, o estilo com que determinará a fluência de suas ideias - a leitura prévia de muitos autores lhe proporcionaria um caminho mais plano. A cultura literária faz milagres. Existem autores, por exemplo, que produzem texto como se estivessem deslizando ladeira abaixo.

O primeiro ponto abordado pelo “mestre”, no diálogo improvável, diz sobre a desordem das primeiras anotações. O segundo ponto, que não deixamos sequer ser mencionado, diria sobre o fluxo das palavras do cérebro para o papel e alguns métodos para que isso se mantenha pelo tempo necessário à consecução da missão de escrever o conto, a crônica, o romance, a monografia ou o relatório ao chefe do departamento.

O mestre disponível é coisa rara, uma espécie praticamente extinta, mas, nas minhas buscas, encontrei um livrinho, uma verdadeira preciosidade, um manual de instruções na arte da produção literária. Quem gosta da ideia de passar a escrever deve comprá-lo. Garanto que terá muitas horas de divertimento e aprendizado com a Sra. Anne Lamott, autora do tal Bird by Bird, ou Palavra por palavra, em português. (Não gostei desse título em português, mas temo que o leitor não vá se dar conta da sutileza que envolve o título, no original em inglês. Eu fui obrigado a “saber” disso porque, quando comprei o livro, só havia a edição americana. Não sei como foi que os pássaros se transformaram em palavras na edição brasileira. Mas não tenho a menor dúvida de que isso deve ter sido objeto de muita discussão entre o tradutor e os editores)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Gomorra


Roberto Saviano é um jornalista italiano que um dia resolveu morrer. Claro que ele não queria morrer verdadeiramente, do jeito que se imagina como seria com um tiro, uma facada ou estrangulamento, essas coisas horríveis e que devem doer um bocado. Ele resolveu que não valia a vida de jornalista se não descobrisse como funciona a indústria da morte, da corrupção infame e da miséria que assola boa parte da Itália: a máfia, mais precisamente a Camorra, de Nápoles.

Largou tudo e se infiltrou naquele mundo. Não precisou ir muito fundo - se tivesse conseguido, não teria sobrevivido para contar a história -, mas o tanto que ele se aprofundou foi o suficiente para escrever o livro Gomorra e merecer uma sentença de morte.

Estarrecido é pouco para definir como fiquei enquanto desfolhava o livro, no princípio com incredulidade e, à medida em que as tramóias macabras vão se sucedendo, com revolta e repugnância. Como isso ainda pode acontecer em pleno século 21? Me perguntei muitas vezes. Que país é esse que não consegue se livrar desse verdadeiro câncer, que é a máfia? Ora, não estamos muito longe daquilo, não é, mesmo aqui no Brasil. Países muito mais desenvolvidos do que nós e a Itália, como os Estados Unidos e Alemanha, têm problemas sérios com organizações derivadas ou associadas diretamente à máfia italiana.

Tráfico de drogas, de armas, chantagem, extorsão, jogatina e loterias, prostituição, contrabando, corrupção de funcionários públicos e armações para amealhar contratos lesivos etc, são muito mais comuns do que percebemos sentados em nossos sofás. A podridão se alastra nas áreas de serviços como a coleta de lixo e obras públicas. Outro exemplo de área dominada pelos escroques é a da movimentação de cargas em portos, isso no mundo todo. A Itália não seria uma exceção, nenhum país é. É ingênuo pensar que sim, que existem lugares diferentes, onde os sindicatos e organizações que dominam essas áreas de serviços e categorias profissionais o fazem por absoluto altruísmo e interesse na grandeza e desenvolvimento do seu país e que não são controlados ou simplesmente pertencem à máfia.

Essas coisas todas e a omissão das autoridades e da sociedade em geral, são expostas didaticamente, cruamente e com clareza pelo texto jornalístico do Saviano. A crueldade insana, sangrenta e sem sentido, manteve um “bolo” na minha garganta durante boa parte da leitura. Homens que praticam atos de barbárie contra mulheres e crianças inocentes, culpados apenas por serem parentes de algum desafeto ou de estarem no lugar errado na hora errada, me fizeram pensar, afinal, que ser humano não significa ser grande coisa.

Gomorra é leitura que fascina, assusta e desperta pensamentos sombrios.

Roberto Saviano ainda não morreu.

sábado, 1 de setembro de 2012

A felicidade é fácil


Acabei de ler o livro do jornalista Edney Silvestre. Não sabia nada dele como escritor, muito menos que esse não era seu primeiro livro. Soube um pouco quando me dei ao trabalho de ler umas e outras boas resenhas sobre o A felicidade é fácil.

Gosto de ler. Leio de tudo. Gosto muito de histórias policiais.

Eu confesso: tive que vencer algum preconceito. Jornalista global, resenhas em jornais escritas por colegas... Caramba! Tenho gasto um bom dinheiro para ler muitos romances policiais dos quais bastou uma resenha “interessante”. E isso não me livrou de ler coisas deficientes. Vou prestigiar um brasileiro, pensei. Não vou conseguir me arrepender disso mais do que já me arrependi ao ter me arriscado com sujeitos com nomes estrangeiros. Comprei o livro.

De início estranhei. Parecia que estava lendo uma história já conhecida, que já havia sido publicada nos jornais, até me dar conta de que o Edney estava usando, com  habilidade, a minha memória. Ele conta um caso de sequestro perpetrado no Brasil por bandidos estrangeiros. Lembram? Pois é, eu ia me lembrando e isso me fazendo acreditar que já sabia do caso. Mas o livro não é uma reportagem, é romance, e me caiu a ficha. O enredo não é o mesmo que narrou, em passado recente, a crônica policial brasileira, mas tem tudo com o que os jornais publicaram sobre os famosos casos do Abílio Diniz e do Olivetto. Só que o autor nos coloca do outro lado da linha, do lado dos que sabiam o que realmente havia por trás daquilo tudo. Estranhamente, a possibilidade de que complôs como aqueles pudessem ter acontecido da forma como ele descreve, não me espantou.

Edney Silvestre navega por onde conhece. Pega tudo: polícia, política, economia, corrupção e outras coisas que estão por aí, na nossa cara, o tempo todo. Mistura, sacode e serve de volta numa história simples, bem montada e bem escrita.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Tablóide Americano


Eu já mencionei esse livro, Tablóide americano (American tabloid), no comentário “6 mil em espécie” que publiquei sobre a trilogia de romances policiais, do James Ellroy onde a narrativa se passa nos Estados Unidos da era Kennedy e logo após. Naquele texto tomei por base o que havia lido nos dois últimos livros da série, os 6 mil em espécie (The cold six thousand) e Sangue errante (Blood’s a rover). Não tinha como comentar o primeiro, o tal Tablóide, porque esteve esgotado. Semana passada, finalmente, terminei a sua leitura.

Tablóide americano, não correspondeu à minha expectativa. Por ser o primeiro, pensei o pior sobre o livro. Normalmente, o autor aprimora o trabalho na medida em que o desenvolve. Engano meu. Não dá para eleger qualquer um dos três livros como o melhor. A pegada é a mesma.

Quando comecei a ler a trilogia, a partir do livro dois, o John Kennedy já era e a ação é nos tempos de depois do seu assassinato. Em Tablóide americano a coisa começa antes da sua eleição para presidente e discorre sobre as maquinações para que isso aconteça, incluindo a campanha contra o Nixon, as tramóias com a máfia - do Sam Giancana e do Carlos Marcelo -, com o Jimmy Hoffa, com o FBI - do Edgar Hoover -, com o Fidel Castro – aquele de Cuba -, com o irmãozinho Robert Kennedy e o até com o doido drogado do Howard Hughes. Descreve o planejamento e as consequências da desastrada invasão da Baia dos Porcos e outras coisas mais do reinado do Kennedy. Todo mundo alimentou ilusões a respeito do priápico presidente. Todo mundo achava que ele seria legal. Todo mundo achava que a máfia se daria bem. Hoffa se daria bem. Hughes e até Fidel também. Ninguém se deu bem.

O livro é ótimo, mas aviso que ele segue o mesmo estilo de pancada dos outros dois, ou seja: golpe abaixo da linha da cintura é o que conta. Prostituição, chantagem, tráfico de heroína e de influência, assassinatos a tiros e a machadadas, roubo, escutas ilegais, tudo faze parte do cardápio oferecido por James Ellroy na trilogia fantástica, Submundo USA, sobre o crime organizado e a politicagem nos Estados Unidos dos anos 50 e 60. Há coisas escritas das quais até Deus duvida, mas nada tão absurdo ao ponto de se ter a certeza de que não aconteceu. Entre as várias delícias, os relatos sobre a produção da revista de fofocas Hush Hush: impagável.

“O maior escritor policial de nossa época, talvez de todos os tempos.” - Newsweek

“Estilhaços narrativos que, unidos com uma coerência exemplar, formam uma história cativante desde os primeiros capítulos. É literatura policial, e das boas.” - Folha de S. Paulo

terça-feira, 14 de agosto de 2012

1933 foi um ano ruim


John Fante foi um homem preocupado com a verdade. Sempre que leio algum dos seus livros me passa pela cabeça que ele faz parecer tão simples escrever direto do coração para o papel. Quem já arriscou seus rabiscos sabe bem do que estou falando.

Nesse livro, pequeno, 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year), ele não deixa nada para depois. Coloca lá as coisas que tocam fundo o coração, direto, sem voltas. Dominic quer o mundo. Ele tem 17 anos e está certo de que não tem tempo a perder. Meu coração pulava enquanto eu me lembrava de que já estive por lá, pelos 17 anos de idade, com meus sonhos e delírios, caros, urgentes.

Depois que terminei de ler o texto de John Fante, morto lá em 1983, doeu lembrar que ainda estou aqui, que nada aconteceu. Que o mundo não acabou – todo mundo um dia teve a certeza de que isso iria acontecer quando viu que a vida não estava nem aí para sonhadores com 17 anos de idade.

Já li dele Pergunte ao Pó (Ask the dust), Espere a primavera, Bandini (Wait until spring, Bandini) e esse, 1933 foi um ano ruim, em todos está presente essa urgência em realizar e a ansiedade jovial do protagonista, mais ou menos um alter ego do autor.

Charles Bukowski, uma espécie de curador informal da obra de John Fante, disse: “finalmente aqui está um homem que não tem medo da emoção”.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quelés




O livro de Roberto Caminha foi uma grande surpresa. Logo nas primeiras páginas eu pensava: é uma preciosidade! É o seu primeiro livro e é ótimo. Um tipo de coisa de que eu gosto: um épico. Mais que isso, um épico amazônico. Mesmo já tendo vivido por lá e com idade suficiente para não duvidar de nada nesse mundo de Deus, não imaginava que houvesse tal história para ser contada e não me lembro de nada parecido entre os livros de aventuras que já li. (Alguém, mais esperto, deverá suspeitar, com razão, de que já li muitos)

Como os bons escritores do gênero – romance biográfico sobre aventureiros/desbravadores -, Roberto conseguiu recriar personagens convincentes, heróicos, íntegros e honestos na sua visão da vida e que, a medida em que o texto se desenvolve, transmitem empatia de tal forma que logo me senti um membro do bando, quer dizer, da família de conquistadores. Mas nossos heróis são daquele tipo que vão além do que a lei e a ordem regulam quando precisam defender os fracos e oprimidos, a si mesmos ou aos seus interesses territoriais, numa Amazônia em pleno ciclo da borracha, com bandidagem pululante. Aí, são de uma crueldade sem par, sem a menor preocupação com o “politicamente correto”, essa praga que nos assola. Em alguns momentos da narrativa eu e meu estômago tivemos que ser fortes, principalmente naquelas passagens onde entre os protagonistas apareciam os jacarés.

Mas afinal, o que é um quelé? Entendi que eram todos os que faziam parte da turma dos bons. Na verdade havia um personagem com esse apelido que acabou estendido a todos os membros do bando. Curioso, pesquisei no Google e descobri uma definição interessante: quelé vem do irlandês Keli, que significa pessoa viva e agressiva. Provavelmente o Quelé do livro não tem nada com os irlandeses, mas seria bem apropriado.

A leitura de Quelés me lembrou dos tempos em que se contavam histórias. É um livro de aventura bom de ler, com narrativa simples e direta, sem enfeites, onde Roberto Caminha, como um grande contador de histórias, narra a saga de seus antepassados.

sábado, 21 de julho de 2012

O livro das coisas perdidas


Era uma vez... É assim que começa a história do menino David, o herói de O livro das coisas perdidas, do escritor irlandês John Connolly.

Encanto desde a primeira linha, o autor conduz nosso herói pelas lendas e fábulas que um dia povoaram o imaginário das crianças, eu entre elas. Chapeuzinho Vermelho e o lobo mau, Branca de Neve e os sete anões, João e Maria, lobisomens e a Bela Adormecida, são algumas das figuras que o menino visita em sua saga em busca de uma verdade.

A narrativa é sombria, a melancolia a companheira de toda hora. As manifestações de crueldade e o seu resultado – uma constante, como acontecia nas fábulas originais –, colorem de vermelho o cenário. O caminho que David precisa percorrer, atrás da saída da situação em que se vê metido, é tortuoso e os perigos são mortais. Será que o bem triunfará sobre o mal? A dúvida nos perseguiu até as últimas páginas.

Leitura difícil de largar, hipnótica. Enquanto viajava pelo livro, lembrei da tia querida e do meu pai, que contavam histórias, muitas vezes terríveis, para os pequenos dormirem. Lembrei de fábulas e de que eu era criança. Revi o momento em que foi plantada a semente que me transformaria em um leitor.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

As Crônicas Marcianas


Fecho os olhos. As imagens vão se formando, vívidas. O chão, as dunas de areia, as colinas e as grandes montanhas distantes, tudo vermelho. Ferrugem. Há uma névoa rubra eterna na linha do horizonte. Em algumas épocas o vermelho se eleva bem acima do horizonte. É a estação das grandes tempestades. Ventos colossais fazem todos se esconderem nos subterrâneos para lá ficar por vários meses, até a natureza se acalmar na superfície.

Sobre a minha cabeça o céu é negro e cheio de estrelas. São tantas estrelas... como nenhum habitante da Terra jamais viu ou verá enquanto estiver mirando de lá o céu noturno. Aqui, onde o céu é sempre negro, a diferença entre o dia e a noite é o sol, que nasce bem menor do que na Terra. Brilhando como uma grande estrela junto com todas as outras contra o céu escuro. É noite quando o Sol desaparece, só que as estrelas continuam ali, agora tomando conta do espaço que cobre tudo. O seu brilho é tão intenso que é claro como o dia, dia marciano.

Nunca subestime o poder da leitura. Eu, que há muito estivera em Marte através d’As Crônicas Marcianas, pouco lembrava daquele planeta e este pouco ainda estava oculto pela névoa do tempo nas dobras do meu cérebro. Enquanto relia o livro do Ray Bradbury fui surpreendido por visões daquele lugar, por onde nunca andei.

Reler o livro me levou de volta a Marte e uma imensa nostalgia tomou conta do meu coração. Não são estranhos esses sentimentos? Nunca estive lá e, no entanto, é como se eu tivesse vindo de lá.

Tenho a mania de não ler introduções, prefácios ou apresentações, que geralmente estão no início dos livros, mesmo que sejam escritas pelo autor. Deixo isso para o final, se gostar do que li. Nesse caso meu mau hábito foi providencial. A leitura da apresentação feita pelo Bradbury teria certamente “estragado” tudo. Ele cita Aldous Huxley em seu comentário sobre As Crônicas Marcianas: “Você é um poeta. Escreveu um livro de poesia sobre Marte. É mais do que ficção, são mais do que meras palavras, são palavras mágicas. Você transformou Marte em um lugar real e nós todos vamos viajar para lá e não vamos voltar, tudo por sua culpa. Você chegou lá primeiro, foi o primeiro marciano. Obrigado por este livro.”

Obrigado por este livro, Ray Bradbury, descanse em paz. Nos vemos em Marte.

sábado, 30 de junho de 2012

Carne trêmula


Gosto de ler contos e romances policiais, as “histórias de detetive”. Para mim é diversão garantida. Tem muita gente boa, inclusive no Brasil, produzindo esse tipo de literatura, que é uma coisa bem antiga. Desde Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle – os pioneiros mais conhecidos -, entre 1840 e 1880, que essas histórias vem alegrando a existência dos que gostam do gênero, como eu.

Apesar de não ser uma escritora novata, pois o seu primeiro romance é de 1964, Ruth Rendell só chegou ao meu conhecimento recentemente, coisa de uns cinco anos. Eu sabia quem ela era, sua reputação etc, mas não havia lido nenhum de seus livros. Comecei minha adoração por ela com o Carne trêmula (Live Flesh). Ter me iniciado na Senhora Rendell por esse livro foi uma combinação de acasos felizes: o conhecido filme do Almodóvar estar na minha memória, o encontro com o livro em uma livraria e ter acabado de ler um outro livro dela, o Uma agulha para o diabo (The fever tree and other stories). Mas não acabei de dizer que me iniciara na Ruth Rendell pelo Carne trêmula e revelo que já havia lido um outro livro dela? Calma! Às vezes precisaremos de mais de um livro para nos transformarmos num admirador. E esse pequeno livro, Uma agulha para o diabo, nem é um romance, mas um livro de contos.

Ruth Rendell está aí há muito tempo e já escreveu mais de cinquenta livros. Gostei de todos os que li, mas Carne trêmula é o mais forte. Ler esse romance policial é uma pancada. Não foi à toa que o Almodóvar o escolheu para fazer o filme. Logo me vi enfiado dentro da cabeça de um psicopata. Assim, a narrativa segue por quase trezentas páginas de agonia e crescente desespero vividos pelo personagem em sua rota de colisão com o mundo. A Sra. Rendell, me fez seguir até o fim, na carona de um maluco, como em um carro desgovernado, em busca do alívio à sua compulsão, o que só será possível no fundo do abismo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

6 mil em espécie


“Foi mandado a Dallas para matar um chefão crioulo chamado Wendell Durfee. Não tinha certeza se conseguiria fazer isso.”

Este aí é o primeiro parágrafo do livro 6 mil em espécie (The cold six thousand), o segundo livro da trilogia que o escritor James Ellroy encerrou com Sangue errante (Blood’s a rover). O primeiro da série é Tablóide americano (American tabloide), que ainda não li. Andou sumido das livrarias. Tive que comprar diretamente da editora. Já chegou, está na fila de espera. O número da senha dele é alto. Vai demorar um pouco até ser lido.

Comecei o comentário com uma amostra do texto do James Ellroy, onde são raros os parágrafos maiores do que este e esses tem pouco além de uma linha a mais. Telegráfico, seco, duro nas palavras e com os personagens, para Ellroy ninguém é bom o suficiente para merecer elogios ou mau que mereça danação inapelável. Bem antes de algum julgamento, são descartados pelo enredo ou eliminados, no mau sentido, por outro personagem. Homens ou mulheres, todos são mais ou menos sujos, fracos e maus. Os que parecem bons, o são até a primeira dobra de esquina. Depois, bem, recomendo a leitura dos livros para descobrir.

O que leva alguém a achar interessante uma coisa dessas: curtir personagens de caráter fraco? Ora, quem deixa de ler o que nossos jornais publicam exaustivamente sobre o que se passa nos corredores do poder na nossa querida República das Bananas? Então, imaginem um autor sem preguiça de pesquisar, trabalhando duro sobre esse tipo de material, escrevendo um conto de ficção sobre a era Kennedy. Melhor, sobre o que acontecia em baixo dos panos no fim daquela era. O resultado me levou ao nocaute!

O primeiro livro, Tablóide americano, se passa no tempo imediatamente anterior ao assassinato do John Kennedy e vai até aí. O segundo, 6 mil em espécie, do qual citei a frase, começa no dia em que o presidente é eliminado (qualquer um pode ter a sua vez) e vai até as vésperas da eliminação do irmão, Robert (mais um). O terceiro livro, Sangue errante, é sobre o complô para isso e mais a liquidação do Martin Luther King. Há heroísmo, coragem e cara de pau. Nenhum santo. Nem o King escapa.

Os livros são narrativas em estilo policial sobre conluios, armações descabeladas engendradas pela Cia, junto com o FBI, oficiais do exército, policiais bandidos, corruptos das agências antidrogas, trambiqueiros da máfia de Nova York e de Las Vegas, renegados cubanos da Cia e comunistas cubanos corruptos, também da Cia. Ellroy não esquece de mulheres bonitas se corrompendo nem de corrompidas tentando parecer boazinhas ou bonitas. Todo mundo quer vida fácil. Todo mundo quer poder. Todo mundo quer prazer rápido, inconsequente. Tudo imediato, junto e misturado.

No fim me dei conta de que aquilo tudo pode ter acontecido daquele forma. Por que não? Afinal, engenhosidade e audácia de bandido não tem limites. Estamos cansados de ver nos jornais e na tv. Esse é o ponto: comecei a ler um romance. De repente estava lendo um documento. Acabei convencido de que somos apenas os últimos a saber.

O nome do homem é James Ellroy. Recomendo a leitura de qualquer um de seus livros. Foi ele quem escreveu Los Angeles, Cidade Proibida (L. A. Confidential) - que deu origem a um bom filme com o mesmo título (de 1997) com Danny DeVito, Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce e Kim Basinger – e Dália Negra (The Black Dahlia), que também foi filmado. Esse último parece que é uma tentativa de purgar um trauma de infância, o assassinato nunca esclarecido de sua mãe.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os belos e malditos


Ler o que Scott Fitzgerald (1896-1940) escreveu é obrigatório. Mas a obrigatoriedade de ler suas obras é uma das coisas mais prazerosas que se pode ter com a literatura. Para quem não sabe, é bom avisar que se trata de ficção. Apesar da fama, como a maioria dos grandes escritores, fez de sua obra algo muito fácil de ser digerido mesmo por aqueles com pouca intimidade com a leitura.

O aviso, de que se trata de ficção, é importante porque, à medida que se vai lendo o maravilhoso Os belos e malditos (The Beautiful and Damned), escrito em 1922, temos a impressão de que aquilo tudo se passou verdadeiramente com o narrador. A obra tem caráter autobiográfico, claro, mas não é literal.

Neste livro Fitzgerald mostra o mundo dos ricos de Nova York na "era do jazz", dos verões da década de 1920 em Long Island e das relações vazias que mantém aquela gente reunida, para fugir da uma realidade que, certamente, não os tornaria mais felizes. Com olhar afiado e irônico escreve a crônica da espiral descendente do casal de esbanjadores Anthony e Gloria Patch que, mesmo depois de alguns passos além da beira do precipício, mantém as aparências e os hábitos a qualquer custo.

Gosto dos personagens do Fritzgerald e de sua “auto-suficiência” arrogante. Acho que ele conseguiu criá-los tão bem por causa de sua própria condição de egocêntrico. Em suas palavras, “eu só vim a saber, com quinze anos, que existiam outras pessoas no mundo além de mim, e isso me custou bastante”.

Fitzgerald escreveu apenas cinco romances. O mais famoso deles, O grande Gatsby (The great Gatsby), de 1925, já foi filmado em quatro versões, a primeira em 1926; a segunda em 1949, com o Allan Lad; a terceira, de 1974, é a mais conhecida com o Robert Redford e a Mia Farrow. Também tem uma quarta versão para a televisão, de 2000, e sabe-se que estão finalizando a produção de mais uma com o Leonardo di Caprio, sempre ele.

Escritor de sucesso precoce, Fitzgerald conseguiu fama e grana muito jovem, logo no seu primeiro livro, o Este lado do paraíso (This Side of Paradise). A partir daí, levou a vida como uma grande festa, com muita birita e dissipação, até morrer com apenas 44 anos, deixando inacabado o quinto romance, O último magnata (The Love of the Last Tycoon).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Zorro


Quem não conhece ou ouviu falar ou ainda não leu um livro da Isabel Allende? Eu ouvi falar, sei algumas coisas dela, mas nunca havia lido um livro seu. Apesar do conhecido sucesso mundial da escritora chilena, dos muitos elogios sobre sua obra, nada me fez ter vontade de ler algum dos seus livros até o Zorro (El Zorro).

Mas, espera aí? Esse livro foi escrito pela Isabel Allende? Não foi um mexicano, um americano quem escreveu isso?, alguém vai perguntar. E foi mesmo, um americano do norte, o canadense Johnston McCulley, quem criou o personagem em 1919, no seu conto A maldição de Capistrano (The curse of Capistrano), publicado em cinco partes numa revista pulp. Depois foi relançado como livro com o título A marca do Zorro. Quando virou seriado da Disney (que eu adorava assistir) entre 1957 e 1959, com o ator Guy Williams no papel do Zorro, acabou se transformando num sucesso mundial. Hoje, desconfio de que se alguém rabiscar para um garoto a famosa marca dos três traços cruzados pode receber de volta o olhar de quem não sabe do que se trata. Se bem que recentemente foi produzida uma sequência de dois filmes (bem razoáveis), com os dois Antônios, o Hopkins e o Banderas, se revezando no papel do herói.

Bom, eu pensava que a história, uma legítima capa-e-espada, que se passava na Califórnia, no final do domínio espanhol sobre o México, havia se esgotado em sí. Afinal, o romance tem começo, meio e fim, quando Don Diego de La Vega, depois de peripécias eletrizantes (recomendo a leitura do clássico), revela sua identidade no último capítulo e todos vivem felizes para sempre.

Meu engano. É aí que começa - na verdade nem chega perto daí - a história que Isabel Allende engendrou para me encantar. Ela não reescreveu a lenda, mas inventou, aumentou o que já era bom. Deu aos fãs do herói mais coisas com o que se deleitar. Eu gostei muito.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A última façanha do major Pettigrew


Preciso urgentemente começar a fazer anotações sobre o que me leva a querer um livro. Nem sempre me lembro exatamente do que me fez comprar um. A única evidência que fica é a de sempre: as resenhas que leio o tempo todo. Mas a pista se perde nesse ponto. Não sou capaz, na maioria das vezes, de seguir farejando para descobrir o que, naquilo que li sobre o livro, me fez desejar a sua leitura. Felizmente, é raro me dar mal. A obra de Helen Simonson, A última façanha do major Pettigrew, é um desses casos.

Se o objetivo desse escrito fosse um resumo, daria para dizer que é sobre um livro de amor e ponto. Pior, relendo algumas resenhas me dou conta de que aquilo não seria do meu interesse. Parecem falar de um romance água com açúcar. Mas isso seria muito pouco e uma injustiça para a autora de um texto absolutamente delicioso. Nesses tempos, quando tanta magia, anjos caídos, vampiros e lobisomens em aventuras descabeladas pululam nas páginas da literatura mundial, incluindo aí escritos de bons e jovens autores brasileiros do gênero, encontrar um livro que fale de pessoas em carne e osso, sem nenhum recurso pirotécnico para atingir seus desígnios, foi uma doce surpresa.

O major, do título do livro, é um militar inglês aposentado, obviamente metódico, que mora numa pequena comunidade não muito distante de Londres, o que não nos surpreende, já que nada pode ser muito distante de nada naquele país tão pequeno se comparado ao nosso Brasil, não é verdade? Entretanto, desde que sua esposa se fora, desta vida, é claro, nosso herói lá vive há seis anos solitariamente. Para aumentar ainda mais seu isolamento, e acrescentar um problema à sua existência, o único irmão também morre. Com isso as suas preocupações passam a ser duas, manter o ritual do seu chá das cinco e tentar reunir ao seu valioso rifle de caça o seu par gêmeo que o pai havia deixado aos cuidados do irmão. A cunhada discorda, com veemência, de olho no valor da antiguidade.

A solidão logo lhe prega uma peça ao fazer com que se interesse pela dona da pequena mercearia do vilarejo, uma viúva paquistanesa culta e bonita. A partir disso os problemas, que antes eram poucos, se multiplicam velozmente, com direito a reação dos filho (de um e de outro), de parte da sociedade local e da família da namorada.

Quando me dei conta estava lutando ao lado do major Ernest Pettigrew, página a página, naquele campo de batalha pantanoso e minado dos preconceitos, dos mal entendidos e dos desencontros no amor.

Acho que decidi pela compra desse livro porque estava preocupado em trazer para casa coisa diferente do que estava lendo na ocasião. Algo por que minha linda companheira também pudesse se interessar. Devia estar cansado das muitas pauladas em Westeros, o lugar das batalhas e intrigas da série de livros do George Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo, das atrocidades relatadas em alguns livros sobre a máfia, sobre a revolução americana e, de quebra, um ou dois criminais com barbaridades envolvendo psicopatas. Também tinha acabado de ler dois da trilogia do James Ellroy sobre as traquinagens da máfia americana, com rebeldes cubanos desalmados e os bandidos da CIA e do FBI, os livros 6 mil em espécie e Sangue errante . Ufa!

A correria do major Pettigrew perseguindo a felicidade foi um bálsamo.

sábado, 28 de abril de 2012

Máfia: padrinhos, pizzarias e falsos padres


Não sei o por que do meu gosto pelo assunto máfia. Aquela dos italianos malvados, geralmente de Nova York. Mas penso se boa parte dessa minha “predileção” não se deve a um seriado americano antigo, o “Cidade Nua” (Naked City), produzido para a televisão entre os anos de 1958 a 1963. Chegou aqui em 64 e passou em algumas cidades, não muitas. Bem, naqueles tempos havia poucas com canal de televisão. Eu, garoto em Porto Alegre, tive a sorte de contar com a TV Gaúcha, como uma das que transmitiu o programa.

De lá para cá fui vendo tudo o que aparecia, não era muita coisa, até aparecer outro marco na minha queda pelas histórias de mafiosos: o livro do Gay Talese, Honrados Mafiosos (Honor Thy Father). Talese, no seu estilo de jornalismo literário, ou Novo Jornalismo, como insistem, conta a história do Joe Bonano e sua família (mulher e filhos). Joe “Bananas” era o chefe da família Bonano (que ainda leva o seu nome e é uma das grandes de Nova York), e consta que o livro foi uma biografia autorizada de um chefão. Depois veio o primeiro Poderoso Chefão.

Toda essa introdução só para ficar claro o meu “amor” pela máfia. Acho que minha personalidade tímida e a flagrante incapacidade para enfrentamentos, digamos, mais rudes, me fez voltar a atenção para personagens com modus operandi tão diferente do meu.

Eu já deixei para trás a fase dos romances de mafiosos. Agora procuro o que jornalistas, juristas ou policiais, que viram o bicho de perto e sobreviveram, escrevem. Minha lista de livros para comprar sobre o assunto é razoável. Aí, nessa perene busca pela bibliografia mafiosa – já li muitos -, acabei encontrando resenhas sobre um livro escrito por uma mulher. Nelas, além das boas recomendações sobre o trabalho de Petra Reski, havia comentários sobre uma visão diferente do problema. Afinal era uma mulher escrevendo sobre um tema, até então, masculino. Em meados de 2011 o livro foi pra fila (longa) da minha lista de compras. Claro que nessa lista não entram somente livros sobre a máfia e os mafiosos, tem de todo tipo. Em outubro de 2011 o livro chegou nas minhas mãos, finalmente. Não que eu estivesse particularmente ansioso por esse, fico assim pelos livros de qualquer encomenda, mas é que aqui o assunto é ele, aliás, o que a Petra escreveu. Melhor ainda, como ela escreveu sobre a máfia.

Minha filha diz que eu gosto de livros para meninos, no que tem razão, na maior parte das vezes. Nesse caso, não. Será que o assunto máfia é coisa para meninos? Provavelmente, a não ser que você seja mulher na Itália, especialmente se for uma na Sicília, na Calábria ou na Campânia. Lá, máfia interessa a qualquer um e as mulheres sofrem pelos seus homens.

Uma alemã escrevendo sobre a máfia italiana pode produzir um livro para meninos? Poderia, mas ela não fez isso. É uma escrita que foi fundo no meu coração enquanto descrevia a relação das mulheres com os costumes do lugar onde vivem, sem escolha.

A partir de uma chacina ocorrida numa pizzaria na Alemanha, a jornalista seguiu a trilha dos suspeitos e acabou na Sicília. Em Palermo pegou uma fotógrafa nativa, filha de uma ativista local e saíram pela ilha atrás de pessoas que tivessem alguma coisa para falar. Não encontraram muita gente corajosa. Elas, sim, tiveram que carregar uma dose imensa de disposição e coragem para realizar o trabalho de campo.

O resultado é um livro para meninos e meninas curiosos. Que se importam em saber como é possível que pessoas como nós - que vivem em regiões bem parecidas com a maioria das regiões do nosso Brasil - nascem, vivem e morrem sob o governo de uma instituição centenária e cruel. Isso acontece no coração da Europa.

Aqueles italianos da máfia de Nova York eram muito bonzinhos.